Então a voz tornou-se sonora e ao mesmo tempo mais doce que nunca. Estas palavras sahiram da moita como de uma sarça ardente.

—Tu és minha noiva. Levante-te e vem. Que o teto azul, onde estão os astros, assista a esta aceitação da minha alma pela tua alma, e que o nosso primeiro beijo se misture ao firmamento!

Deruchette levantou-se e ficou um instante immovel e com o olhar fixo diante de si, fitando, sem duvida, outro olhar. Depois, a passos lentos, com a cabeça erguida, os braços pendentes e os dedos das mãos abertos, como quando se caminha para um amparao desconhecido, ela dirigio-se para a moita e desappareceu.

Um instante depois, em vez de uma sombra na areia, havia, duas, confundiam-se ambas, e Gilliatt via a seus pés o abraço daquellas duas sombras.

O tempo corre de nós como de uma ampulheta, e nós não temos o sentimento dessa fuga, sobretudo em certos instantes supremos. De um lado aquelle par, que ignorava a testemunha e não a via, do outro aquella testemunha que não via os dous, mas que sabia que elles alli estavam, quantos minutos ficaram assim nessa mysteriosa suspensão? Seria impossivel dizel-o. De subido echoou um ruido longinquo e uma voz gritou: Soccorro! E o sino do porto começou a soar. É provavel que a felicidade ebria e celeste não ouvisse o tumulto.

O sino continuou a soar. Quem procurasse Gilliatt no angulo do muro já o não encontraria.


[LIVRO SEGUNDO]

Reconhecimento em pleno despotismo