[I]
ALEGRIA CERCADA DE ANGUSTIAS
Mess Lethierry agitava o sino com soffreguidão. De subito parou. Vio um homem voltar a esquina do cáes. Era Gilliatt.
Mess Lethierry correu a elle, ou para melhor dizer atirou-se a elle, tomou-lhe a mão entre as suas, e olhou-o fitamente em silencio; um desses silencios da explosão, não sabendo por onde irromper.
Depois com violencia, saccudindo, e puxando, e apertando-o nos braços, fez entrar Gilliatt na sala baixa de Bravées, empurrou a porta com o tacão, e ficou entre-aberta, assentou-se ou cahio, em uma cadeira ao lado de uma grande mesa illuminada pela lua, cujo reflexo eubranquecia vagamente o rosto do Gilliatt, e com uma voz onde haviam gargalhadas e soluços misturados, gritou:
—Ah! meu filho! homem do bug-pipe! Gilliatt! eu bem sabia que eras tu! A pança! que diabo! conta-me isso! Pois foste! Ha cem annos queimavam-te. É feitiçaria. Não falta nada. Já examinei, reconheci, apalpei. Adevinho que as rodas estão nas duas caixas. Então chegaste! Fui procurar-te na pança. Toquei o sino. Procurava-te. Eu dizia comigo: onde está elle? Quero devoral-o. É preciso convir que se passam cousas extraordinarias. Aquelle animal volta do escolho Douvres. Traz-me a vida. Com os diabos! tu és um anjo. Sim, sim, sim, é a minha machina. Ninguem acredita. Hão de vêl-a e dizer: Não falta nem uma serpentina. O tubo d'agua não se deslocou. É incrivel que não houvesse avaria. Falta só pôr um pouco de azeite. Mas como foi? E a Durande vai agora navegar! A arvore das rodas está desmontada como se fosse feito por um ourives. Dá-me a tua palavra de honra que eu não estou doudo.
Levantou-se, respirou e proseguio: