—Jura-me. Que revolução! Dou beliscões em mim mesmo, vejo que não sonho. Tu és meu filho, és meu rapaz, és Deos. Ah! meu filho. Ir buscar a minha pobre machina! No mar alto! Naquella emboscada do escolho! Tenho visto muita cousa espantosa em minha vida. Nunca vi cousa assim. Vi os parisienses que são uns satanazes. Boas! não faziam isto. É peior que a Bastilha. Vi os gaúchos lavrar nas pampas, tendo por charrua um galho de arvore, do comprimento de um covado, e por grade um feixe de espinhos puxado por corda de couro; colhem com isto grãos de trigo do tamanho de avelãs. Não valem dous caracoes ao pé de ti. Fizeste um milagre, um verdadeiro milagre. Ah! tratante! Salta-me ao pescoço. Como vai rosnar a gente de Saint-Sampson! Vou tratar já e já de fazer o navio. E, admiravel não ter quebrado a vara da redouça. Meus senhores, elle foi ás Douvres. As Douvres! um penedo que não tem rival. Já sabes, está provado que a cousa foi feita de proposito. Clubin perdeu a Durande para furtar-me o dinheiro que devia trazer-me. Embriagou Tangrouille. É longo, depois te contarei a pirataria delle. Eu era um bruto, tinha confiança em Clubin. Mas o malvado não pôde naturalmente sahir de lá. Ha um Deos, canalha! Olha, Gilliatt, quanto antes, ferro na forja, vamos reconstruir a Durande. Dar-lhe-hemos vinte pés mais. Agora fazem-se os navios mais compridos. Hei de comprar madeira em Dantzick e Bremen. Agora que tenho a machina hão de emprestar-me dinheiro. A confiança voltará.

Mess Lcthierry deteve-se, levantou os olhos com aquelle olhar que vê o céo atravéz do tecto, e disse entre os dentes: Ha um meio.

Depois poz o dedo medio da mão direita entre as sobrancelhas, com a unha apoiada no alto do nariz, o que indica a passagem de um projecto no cerebro, e continuou:

—É o mesmo, para começar em grande escala, algum dinheiro basta. Ah! se eu tivesse as minhas tres notas de banco que o tratante de Rautaine me restituio e que o tratante de Clubin me roubou!

Gilliatt, em silencio, procurou na algibeira alguma cousa, que collocou diante de si. Era o cinto de Clubin. Abrio e pôz na mesa o cinto, no interior do qual a lua deixava ler a palavra: Clubin; tirou da abertura uma caixinha, e da caixinha tres pedaços de papel que desenrolou e estendeu a mess Lethierry.

Mess Lethierry examinou os tres pedaços de papel. Havia bastante claridade para que o algarismo 1,000 e a palavra thousand fossem perfeitamente visiveis. Mess Lethierry pegou nos tres bilhetes, pol-os na mesa um ao lado do outro, olhou para elles, olhou para Gilliatt, ficou um momento calado, depois foi como que uma erupção depois de uma explosão.

—Tambem isto! Tu és prodigioso. As minhas notas do banco! todas tres! mil cada umal os meus sessenta mil francos! Então foste ao inferno? É o cinto de Clubin. Por Deos: leio-lhe o nojento nome. Gilliatt traz a machina, e mais o dinheiro! Isto deve ser contado nos diarios publicos. Vou comprar madeira de primeira qualidade. Adevinho, achaste o esqueleto. Clubin apodreceu lá em algum canto. Compraremos pinho em Dantzick e carvalho em Bremen, faremos um bom casco, carvalho por dentro, pinho por fora. Em outro tempo fabricavam-se navios menos perfeitos e elles duravam mais; é que a madeira era mais secca porque não se construia tanto. Faremos talvez a quilha de olmo. O olmo é bom para estar sempre na agua: andando ora molhado, ora secco, apodrece: o olmo alimenta-se de agua. Que bella Durande vamos fazer! Não me hão de impôr. Já não preciso credito. Tenho dinheiro. Já se vio cousa assim como Gilliatt? Eu estava prostrado, abatido, morto. Chega elle e pôe-me de pé. E eu que não pensava nelle! Já nem me lembrava. Agora lembra-me tudo. Pobre rapaz! Ah! bem, sabes, tu casas com Deruchette.

Gilliatt encostou-se á parede como se vacillasse e baixinho, mas distintamente, disse.

—Não.

Mess Lethierry teve um sobresalto.