—Disse que não.
—Disseste que não. E teima o bruto! Tens alguma cousa, é claro! Disseste que não! É uma estupidez que passa os limites do mundo conhecido. Por muito menos dão-se banhos medicinaes a uma creatura. Ah! tu não amas Deruchette! Então foi por amor do velhote que fizeste tudo isto! Foi pelos bonitos olhos do papá que foste ás Douvres, que tiveste frio, que tives calor, que tiveste fome e sede, que comeste bichos do rochedo, que tiveste por quarto de dormir o nevoeiro, a chuva e o vento, e que me trouxeste a machina como se traz a uma mulher bonita o canario que fugio? E a tempestade de ha tres dias! Se tu imaginas que eu não faço idéa do que passaste! Estiveste em boas! Foi então com o pensamento em mim que cortaste, rachaste, viraste, arrastaste, limaste, serraste, inventaste, e fizeste tantos milagres, tu só, mais que todos os santos do paraiso? Ah! idiota! Pois olha que me aborreceste com a tua sanphona! Na Bretanha chama-se biniou. Sempre a mesma toada, animal! Ah! tu não amas Deruchette! Não sei o que tens. Lembra-me agora, eu estava neste canto, Deruchette disse: Casava-me. E hade casar comtigo. Ah! não a amas! Feitas as reflexões, eu não comprehendo nada. Ou tu estaes doudo ou eu! E não diz palavra! Não é licito fazer o que fizeste e dizer no fim: não amo Deruchette. Não se faz um obzequio á gente para obrigal-a a ficar com raiva. Pois bem, se não te casas com ella, Deruchette não se casa com pessoa alguma, fica para tia. Em primeiro lugar, preciso de ti. Serás piloto da Durande. Se cuidas que vou deixar-te ir assim! Ta, ta, ta, nada, meu amigo, já te não largo. És meu. Nem te quero ouvir. Onde ha um marinheiro como tu? És o meu homem. Mas falla, com os diabos!
O sino tinha accordado a gente da casa e da visinhança. Doce e Graça tinham-se levantado e acabavam de entrar na sala baixa, espantadas, sem dizer palavra. Graça trazia uma vela. Um grupo de vizinhos, burguezes, marinheiros e aldeãos, sabidos á pressa, estava fora no cáes, contemplando com pasmo e susto o cano da Durande na pança.
Alguns, ouvindo a voz de Lethierry na sala baixa, começavam a entrar silenciosamente pela porta entre-aberta. Entre duas caras de comadres, passava a cabeça do Sr. Landoys que por acaso costumava sempre estar presente nos lugares onde sentiria se não estivesse.
As grandes alegrias querem sempre um publico. Agrada-lhes o ponto de apoio um pouco esparso que offerece uma multidão; partem dahi. Mess Lethierry descobrio repentinamente que tinha gente a roda de si. Aceitou logo o auditorio.
—Ah! vocês estão ahi? Que felicidade. Já sabem a noticia. Este homem lá foi e de lá trouxe aquillo. Bom dia, Sr. Landoys. Ainda ha pouco quando accordei vi o cano. Estava debaixo da minha janella. Não falta nem um prego. Fizeram-se gravuras de Napoleão; eu prefiro isto á batalha de Austerlitz. Sabem vocês da cousa. A Durande chegou emquanto dormiam. Emquanto se mettiam nos lençóes e apagavam as velas, ha pessoas que são heróes. Uns são covardes, vadios, aquecem os seus rheumatismos; felizmente isso não impede que hajam espiritos fogosos. Esses vão onde é preciso ir, fazem o que é preciso fazer. O homem da casa mal assombrada chegou do rochedo Douvres. Pescou a Durande do fundo do mar, pescou o dinheiro da algibeira de Clubin, abysmo mais profundo que o outro. Mas como fizeste isto? Tinhas todos os diabos contra ti, o vento e a maré, a maré e o vento. É verdade que tu és feiticeiro. Os que dizem isso já não são tão pascacios. Voltou a Durande! em vão se enfurecem as tempestades, este estrangula-as. Meus amigos, annuncio-lhes que já não ha naufragios. Já examinei a machina. Está como nova, está completa! Movem-se os cylindros tão facilmente como dantes. Parecia novinha em folha. Sabem que a agua que sahe é levada para fora do navio por um tubo colocado em outro tubo por onde passa agua que entra, para utilisar o calor; pois bem, os dous tubos estão salvos. A machina toda! as rodas tambem! Ah! has de casar com ella!
—Com quem? com a machina? perguntou o Sr. Landoys.
—Não, a pequena. Sim, a machina. Ambas. Ha de ser duas vezes meu genro. Good bye, capitão Gilliatt. Vamos ter Durande! Vamos fazer negocio, vai haver circulação e commercio, e transporte de bois e carneiros! Não troco Saint-Sampson por Londres. E aqui está o autor. Digo-lhes que é uma aventura. Ha de ler-se isto sabbado na gazeta de Mauger. O engenhoso Gilliatt é um finorio. Que dinheiro é este em ouro?
Mess Lethierry acabava de ver, pela fresta da tampa, que havia ouro na caixinha posta sobre as notas de banco. Pegou nella, abrio-a, esvasiou-a na palma da mão, e pôz o punhado de guinéos sobre a mesa.
—Para os pobres. Sr. Landoys, dê estes pounds da minha parte ao condestavel de Saint-Sampson. Sabe da carta de Rantaine? Mostrei-lh'a outro dia; pois bem; aqui estão as notas do banco. Com isto posso comprar carvalho e pinho, e fazer a carpintaria. Veja. Lembra-se do tempo que houve ha tres dias? Que ataque de vento e de chuva! O céo disparava tiros de canhão. Gilliatt recebeu tudo isso nas Douvres, sem que lhe obstasse o desaferrar o navio como eu tiro o meu relogio da parede. Graças a Gilliatt, já sou alguem. A galeota do pai Lethierry vai continuar o serviço, senhores e senhoras. Uma casca do noz com duas rodas, e um tubo de cachimbo, foi sempre a minha mania. Disse sempre comigo: Hei de fazer uma machina destas! Data de longe; foi uma idéa que tive em Pariz, no café que faz a esquina da rua Christina e da rua Delphina, lendo um jornal que fallava do invento. Sabem que Gilliatt era capaz de metter a machina de Marly na algibeira e passear com ella? Este homem é de ferro batido, é aço de tempera, é diamante, um marujo de polpa, um ferreiro, um rapazola extraordinario, mais espantoso que o principe Hohenlohe. A isto chamo eu um homem de engenho. Nós não valemos nada. Os lobos do mar somos nós; o leão de mar é elle. Hurrah, Gilliatt! Não sei o que elle fez, mas certamente fez o diabo, e como é que não lhe hei dar Deruchette!