Desde alguns instantes Deruchette entrara na sala. Não dissera palavra, não fizera rumor. Entrou como uma sombra. Assentára-se, quasi desapercebida, em uma cadeira por traz de mess Lethierry de pé, loquaz, tempestuoso, alegre, abundante de gestos, e fallando em voz alta. Um pouco atraz della, veio outra apparição muda. Um homem vestido de preto, de gravata branca, com o chapéo na mão, parára na abertura da porta. Havia agora muitas velas no grupo lentamente engrossado. As luzes batiam de lado no homem vestido de preto; o seu perfil, de alvura joven e deliciosa, desenhava-se no fundo obscuro com urna pureza do medalha; apoiava o cotovello n'uma almofada da porta, e tinha a fronte na mão esquerda, attitude que lhe era graciosa, sem ser meditada, e que fazia valer a grandeza da fronte na pequenez da mão. Havia uma ruga de angustia no centro de seus labios contrahidos. Examinava e ouvia com attenção profunda. Os assistentes, tendo reconhecido o reverendo Ebeneser Caudray, cura da parochia, tinham-se affastado para deixal-o passar, mas elle ficou na soleira. Havia hesitação na sua postura e decisão no seu olhar. O olhar de quando em quando encontrava o de Deruchette. Quanto a Gilliatt, ou por acaso ou de proposito, estava na sombra, e mal se podia vêl-o.
Mess Lethierry não vio ao principio o Sr. Ebeneser, mas vio Deruchette. Foi a ella, e beijou-a com toda a soffreguidão que póde ter um beijo na fronte. Ao mesmo tempo estendia o braço para o canto escuro onde estava Gilliatt.
—Deruchette, disse elle, estás outra vez rica, e o teu marido é aquelle.
Deruchette levantou a cabeça desvairada e olhou para a sombra.
Mess Lethierry continuou:
—Ha de se fazer o casamento quanto antes, amanhã se fôr possivel, hão de haver dispensas, mas as formalidades são simples, o decano faz o que quer, casa-se a gente antes de gritar: guarda de baixo! não é como em França, onde se precisam banhos, publicações, dilações, um chuveiro de formalidades, e tu serás mulher de um homem valente, e não ha que dizer, é um marinheiro, sempre o pensei desde o dia em que o vi voltar de Herm com a peça de artilheria. Agora volta das Douvres, com a sua fortuna, e a minha, e a fortuna da terra; é um homem que hade dar que fallar; tu disseste: caso-me com elle; pois has de casar; e hão de ter filhos, e eu serei avô, e terás fortuna de ser a lady de um rapagão sério, que trabalha, que é util, que é sorprehendente, que vale por cem, que salva as invenções dos outros, que é uma providencia, e ao menos não casarás, como todas as raparigas ricas deste lugar, com um soldado ou um padre, isto é o homem que mata e o homem que mente. Mas que fazes ahi mettido no canto, Gilliatt? Ninguem te vê. Dôce! graça! todos! luzes! Illuminem o meu genro a giorno. Caso-os, meus filhos, e eis teu marido, e eis o meu genro, o Gilliatt da casa mal assombrada, o grande marinheiro, e eu não terei outro genro, e não terás outro marido, torno a dar a minha palavra de honra a Deos. Ah! Ah! é Vossa Reverendissima, senhor cura, ha de casar-me estes pequenos.
O olhar de mess Lethierry acabava de cahir no reverendo Ebeneser.
Doce e graça tinham obedecido. Duas velas postas na mesa illuminavam Gilliatt da cabeça aos pés.
—Como está bonito! gritou Lethierry.
Gilliatt estava hediondo.