Esses asylos obscuros das praias, que tentam as banhistas, não são tão solitarios como se pensa. Ás vezes espreita-se e ouve-se de fóra. Os que se refugiam podem ser facilmente acompanhados atravez das espessuras das vegetações, e graças á multiplicidade e entravamento dos atalhos. Os granitos e arvores que escondem o refugiado, podem esconder tambem uma testemunha.

Deruchette e Ebeneser estavam de pé diante um do outro, com o olhar no olhar; tinham as mãos presas. Ebeneser estava calado. Uma lagrima engrossada e presa entre os seus cilios hesitava em cahir, e não cahia.

A desolação e a paixão estavam impressas na fronte religiosa de Ebeneser. Havia tambem uma resignação pungente, hostil á fé, embora derivasse della. Naquelle rosto, simplesmente angelico até então, havia um começo de expressão fatal. Aquelle que até então só meditara sobre o dogma, entrava a meditar sobre a sorte, meditação nociva ao padre. Nessa meditação decompõe-se a fé. Nada perturba tanto o espirito como curvar-se ao peso do ignoto. O homem é o paciente dos acontecimentos. A vida é um perpetuo successo, imposto ao homem. O homem não sabe de que lado virá a brusca descida do acaso. As catastrophes e as felicidades, entram e sahern como personagens inesperadas. Tem a sua fé, a sua orbita, a sua gravitação fóra do homem. A virtude não traz a felicidade, o crime não traz a desgraça; a consciencia tem uma logica, a sorte tem outra; nenhuma coincidencia. Nada pode ser previsto. Vivemos de atropello. A consciencia é a linha recta, a vida é o turbilhão. O turbilhão atira á cabeça do homem cachos negros e céos azues. A sorte não tem a arte das transições. Ás vezes a vida anda tão depressa que o homem mal distingue o intervallo de uma peripecia á outra e o laço de hontem a hoje. Ebenezer era um crente mesclado de raciocinio e um padre mesclado de paixão. As religiões celibatarias sabem o que fazem. Nada desfaz tanto o padre como amar uma mulher. Todas as especies de nuvens ensombravam Ebeneser.

Contemplava demasiado Deruchette.

Aquellas duas creaturas idolatravam-se.

Havia na palpebra de Ebeneser a muda adoração do desespero.

Deruchette dizia:

—Não hade partir. Não tenho força para vêl-o ir-se embora. Eu acreditava poder despedir-me, e não posso. Ninguem é obrigado a poder. Porque foi hontem ao jardim? Não devia ir, se queria ir-se embora. Nunca lhe fallei. Amava-o, mas não o sabia. Somente, quando o Sr. Herodes leu a historia de Rebecca, e que os seus olhos encontraram os meus, senti as faces em fogo, e disse comigo: Oh! como Rebecca devia ter corado! Hontem se me dissessem que eu amaria o cura, ria-me. É o que ha de terrivel neste amor. Foi uma especie do traição. Não me acautelei. Ia á igreja, via-o, acreditei que todos eram como eu. Não lhe faço censura alguma, nada fez para que eu o ame, não se deu a nenhum trabalho, olhava-me, não é culpa sua se olha para as outras pessoas, e o resultado é que eu o adoro. Eu nem reparava. Quando as suas mãos pegavam n'um livro, era uma luz; quando os outros pegavam nelle, era apenas um livro. Ás vezes levantava os olhos para mim. Fallava dos archanjos, e era o archanjo. O que dizia, pensava-o eu logo. Antes de vêl-o não sei se acreditava em Deos. Depois que o vi, tornei-me uma mulher que faz as suas orações. Eu dizia a Doce: veste-me depressa, não quero faltar ao officio. E corria á igreja. Estar apaixonada por um homem, é isto. Eu não o sabia. Dizia comigo: Como estou devota! Depois de vêl-o é que soube que eu não ia á igreja por causa de Deos. Ia vêl-o é verdade. É formoso, falla bem, quando levanta os braços para o céo parece que tem o meu coração entre as suas duas mãos brancas. Eu estava louca. Ignorava-o. Quer que lhe diga a sua culpa? foi entrar hontem no jardim e fallar-me. Se nada me dissesse, eu nada saberia. Partiria, eu ficava triste, mas agora morrerei. Agora que eu sei que o amor não é possivel que se vá embora. Em que pensa? Parece que não me ouve.

Ebeneser respondeu:

—A senhora ouvio o que se disse hontem.