No dia então aprazado, não teve um momento de descanço o alvoroçado Gracias. Duas, tres, dez, vinte vezes foi ao tattersal, repetiu as instrucções, descreveu ao cocheiro aprazado os logares, todas as particularidades do ponto de espera, fez d’elle seu confidente, gratificando-o com toda a antecedencia. Do mesmo modo no Hotel dos Quatro Cantos.
A rua do Ouvidor percorreu-a febrilmente o dia todo. Aqui, alli, nas innumeras e vertiginosas passadas, a consultar todos os relogios como se receiasse perder a hora solemne, foi ingerindo calices e mais calices de cognac, kirsch e rhum e xerez e mais isto e mais aquillo, em numero de todo o ponto incalculavel, capaz de encher de alto a baixo todo um obelisco egypcio, consagrado a dados estatisticos sobre consumo de liquidos.
E, entretanto, não dava signal de ebriedade; a superexcitação nervosa o aguentava com valentia.
Não pôde jantar. Mal lambiscou umas gulozinas.
Tambem, á hora em que, encafuado no carro, se quedou á espreita da presa, á maneira de ardilosa aranha no centro da teia, não podia mais de cansaço, os membros todos alquebrados, numa lassidão inexprimivel. Cochilava como um perdido e, embora quizesse impedir a conversa do cocheiro com um caixeirinho da venda proxima á casa do commendador, não se mexia, a cabecear, tolhido, inerte, estatelado, ouvindo, comtudo, palavras que deviam tel-o sobresaltado: espéra, rapto, moça do bairro...
Só despertou com a chegada de Julia Candelaria, toda de preto e envolvida em mantilha negra, mas muito senhora de si, alegre, satisfeitissima da sua proeza. Não encontrára estorvo algum; não suscitára nenhuma desconfiança.
Soavam então 10 horas.
—Cocheiro, bradou Gracias sahindo do seu torpôr; toque para o ponto que já sabe... Um relampago!
E lá se foi em disparada o vehiculo pelas ruas já silenciosas, com ares de mysterio muito chic, baixas as cortinas, fustigados valentemente os cavallos negros, encarregados de representar de pampeiro naquelle dramatico episodio.
—Emfim... emfim... exclamou Gracias buscando chamar a si todo o enthusiasmo das tradições castelhanas, chegou a nossa hora... chegou... chegou...