Qual! somno invencivel lhe prendeu a lingua, fechou-lhe a bocca com mão de ferro. Grande tambem o espanto de Julia, que a pouco e pouco se mostrou amuada, offendida, e afinal se encolheu mal humorada a um canto do carro.

Ao rapido balancear da tipoia sonhava o misero com uma cama larga, macia, perfumada, irresistivel, em que afinal tomava desforra completa das passadas insomnias! Como era bom dormir, dormir a farta, refazer as forças perdidas, estender e desentesar os nervos e musculos, tantos e tantos dias contrahidos, repuxados, hypersthenisados! Não, devéras, nada vale um bom conchego, quando a gente tem somnos atrazados, nada se lhe compara!

De repente accordou.

Era o carro que parava, alcançado o Hotel dos Quatro Cantos.

E o creado á porta, gravibundo, ainda que revestido de certo ar de condescendencia, esperava os dous pombinhos e os foi guiando com toda a discrição ao quarto preparado.

Fecharam-se.

Gracias, acabada a momentanea sacudidéla da chegada, não comprehendia mais onde estava, o que fazia. Tudo entrava no dominio do sonho. E não era que o via realisado? Como que lhe estirava amorosos braços uma cama, a puxal-o com desapoderada attracção na sua brancura, deslumbrante a olhos faceis, bem duvidosa, entretanto, máo grado todas as recommendações mil vezes feitas. «Um ninho de cysnes!» pedira instante ao hoteleiro, gostando, mais que tudo, da phrase.

Como, pois, não se deitar logo e logo a fio comprido? Como recusar-se a tão convidativos e suaves encantos? Impossivel, superior a forças humanas... n’aquella emergencia!

—Ao thálamo nupcial, balbuciou elle. Julia... minha celeste Julia!

E, dando o exemplo, tirou depressa as celebres botinas de verniz e, vestido como estava, embrulhado no manto hespanhol, deixou-se ir, sem resistencia, a um somno de chumbo, acabrunhador, ineluctavel. D’alli a nada resonava como um bemaventurado.