Sim senhor, graças aos inesperados e meigos sorrisos da sorte, se tornára, nada mais, nada menos, um capitalista importante.
E rapaz ainda, bonitasso, na casa dos 35, atirado ás mulheres, gostando de roupagens claras, gravatas vermelhas com alfinetes de graudo brilhante, pilherico, mettido a contar anecdotas engraçadas, picarescas.
A massada era a Nicóta, a mulher, tão franzina, desengonçada, chôchinha, sem carnes, sempre retrahida, muito acaipirada, cousa demais. Tambem fôra aquelle casamento uma bobagem, estopada de marca maior.
Mocinho, numa festa de roça, tolamente se embeiçára por ella, então rapariga sem graça nenhuma, e, quando déra accordo si, zás, traz, nó cégo, estava casado, amarrado para todo o sempre pelo conjungo de um vigario de aldêa. Que espiga!
Não era, de certo, másinha a Nicóta, muito accommodada, calada, no fundo nulla, absolutamente nulla. Della não vinha nem bem, nem mal ao mundo. Incapaz de matar uma mosca. Servira nos tempos de penuria e miseria, quando vegetára nuns empregos réles, de cacaracá; mas agora que pretendia fazer figura na sociedade, frequentar theatros, concertos e bailes, receber e dar jantares, como se avir com semelhante pamonha?
Nada lhe assentava no corpo mal ajorcado, sem ondulações nem quadris. Não havia chapéo que lhe quadrasse, e por mais joias que puzesse ficava até peior.
Mettia-lhe devéras vergonha, ella ao seu braço pela rua do Ouvidor afóra.
Não sabia nem sequer aproveitar o cabello que tinha comprido e abundante. Penteava-o á china, puxando-o todo para traz e deixando uma testa de bater roupa, com uma cara muito feia, rechupada, faces encovadas, olhos empapuçados, beiços escados em ponta, como bico de chocolateira.
Por mais que lhe dissesse: «arranje-se melhor, Nicóta; veja fulana, veja sicrana», não adiantava um passo, nem cousa alguma conseguia.