Tinha por vezes vontade de lhe empurrar a mão, dar-lhe pancada e até cabo da pelle, vel-a morta, mettida no caixão e enterrada. Que allivio! Com mil bombas, aquillo não era mulher para elle!
Ah! fosse casado com alguma desempenada, que vida, que figurão! Alguem que o comprehendesse e estivesse na altura da posição conquistada, elle que pretendia agora abrir os seus salões, mandar até comprar um titulo em Portugal.
Vejão, porém, só a Nicóta baroneza ou viscondessa; ninguem a tomaria ao sério, ninguem; um varapáo de saias, sem expresão, sem vida, nem peixe, nem carne. E a abrir a bocca, era logo um xurrilho de asneiras «muié, havéra, promóde, teia, panhou, rancou». Mal sabia lêr e escrever.
Aquillo nunca se havia de desemburrar, excusado!
Só prestava para pregar botões ás camisas e ceroulas e coser na machina, assim mesmo tão vagarosa, desconsolada sempre, á mercê do marido, numa pasmaceira enorme, desfibrada, atonica, inerte, attenta só á limpeza da casa, que trazia como um brinco.
Que massada, que peso, a tal Nicóta! Se ella pudesse esticar a cannela, morrer de uma boa vez!... Não faria nada por isso, porque afinal não era nenhum criminoso, desalmado e assassino. Só se a natureza se lembrasse de libertal-o daquella lesma. E devia merecer esse favor, porque estava mil furos acima de semelhante creatura chlorotica, esgrovinhada, incapaz de lhe seguir os passos, sobretudo na vida nova que a fortuna lhe proporcionára.
Com a bréca, dispôr de centenas de contos e estar de mãos e pés atados, preso a um ente daquelles!
Lá podia pensar em viajar a Europa com a Nicóta? Por toda a parte provocaria riso e chasco, bem merecidos, lá isso era verdade.
Nunca tivéra filhos e felizmente. Havião de ser uns apatetados da força da mãe.
E de alguns annos a esta parte de continuo achacada; ora disto, ora daquillo ou daquillo outro, umas dôres vagas, oppressões, faltas de respiração, que a tornavão ainda mais feia, obrigando-a a esturdias caretas.