Falára um medico em molestia do coração, adiantada até. Qual! Já havia disso bom par de annos, e nada della arrebentar. Mulher doente, mulher para sempre: o dictado tinha toda a razão. Mil raios!
Depois então das historias do encilhamento, parecera melhorar, e muito. Não se queixava, nem mesmo o pouco ou quasi nada do costume.
Se, pelo menos, mostrasse ufania e admiração pelo marido! Nada! Incapaz de qualquer movimento que não tivesse repetido na vespera, antehontem, uma semana, um mez, dez ou quinze annos atraz.
Tambem elle a soccava sem a menor cerimonia em casa e, em todos os tempos, ia lá fóra pagodear á grande. Agora não se fartava de ceiatas com francezas bem pandegas e de cabello pintado de açafrão. E, no dia seguinte das grossas patuscadas, encontrava sempre a mesma physionomia, fria, impassivel, sem a menor alteração.
Devéras atacava-lhes os nervos.
Ah! se a tal molestia de coração pudesse estar caminhando! Quem sabe? Qual! Ás vezes lhe perguntava com ar de interesse: «Então, Nicóta, aquellas dôres?» «Estou bem mió, respondia ella a arrastar a voz esganiçada e chorosa. Nunca mais tive nada!»
Elle viuvo, que vidão! Tudo se havia de transformar, desligado daquella pesada poita. Montára casa rica, cheia de trastes dourados e numerosa creadagem, alguns até francezes. E não é que a Nicóta se levantava quasi de madrugada, como nos tempos de amanuense da secretaria de policia, em que tinha de ir accender fogo e preparar café?
Que estupida, afinal!