E ella, inclinando-se toda sobre o malsinado, como que a defendel-o de mysterioso inimigo, a chorar, o acalentava, qual creancinha de berço.

Ia então desembocando em offuscadora claridade a locomotiva, triumphante e a apitar estridente e galhofeira.

—Como é boa a luz, como é boa! exclamou Alberto erguendo nervosamente a cabeça e com ar de verdadeira exultação. Pensei que ia morrer. A morte deve ser assim; um tunnel, do qual a gente não sai mais nunca, comprido, comprido e tão escuro, tão escuro, Santo Deus!... E onde a boa mamãe para animar o filhinho... só, abandonado!...

Não sei por que, julguei dever intervir, como que desvendar consoladora clareira ás negras idéas d’aquelle menino tão combalido e ameaçado.

—Não, Alberto, repliquei com involuntaria gravidade e imposição, na morte ha tambem muita luz, muita esperança, muito céo, o verdadeiro céo, sempre azul e grandioso... Na morte, mil alegrias e gozos esperam a alma, como a vida não as póde dar... O tunnel acaba logo... começa depois sem demora a realidade, eterna, cheia de encantos e esplendores... Illimitada é a bondade do immenso Creador!

E estaquei, vexado do que acabara de expender, na vivacidade espontanea daquella especie de prelecção tão descabida.

Mostrára Alberto certa sorpreza ao ouvir essas palavras, e, encarando-me muito sério, respondeu com resignado desalento:

—Póde ser, póde bem ser... mas eu não quero ainda morrer!...

E retrahiu-se ao silencio. De vez em quando tiritava, encolhendo-se todo e a bater os queixos. Buscava, porém, cauteloso, dominar manifestações que impressionassem mais os paes, attentos ao menor symptoma de aggravação, tão attentos quanto impotentes e vencidos; pobres, pobres paes!