—Não será bom vêr o thermometro? propoz a mãi com respiração cortada, offegante.

—Não, mamãe, pelo amor de Deus, poude ainda implorar o pequeno.

Já ahi entraramos na zona dos suburbios e os lampeões de gaz, cada vez mais chegados, indicavam a proximidade da capital. As estações todas illuminadas, cheias de borborinho e animação populares. Numa d’ellas tocava uma banda de musica saltitante peça e o contraste d’esses alegres compassos mais me apertou o coração.

Revoltava-se, comtudo, o meu egoismo. Que necessidade essa de me associar a todo aquelle drama intimo, que me trazia tão consternado e tanto me abalava o systema nervoso? Por que não mudava de logar, não procurava outro qualquer vagão? Afinal, não era aquillo tão comesinho? Não assistira a tantos episodios de agonia e morte? Mais uma criança que desapparecia no barathro insondavel... para dar razão ás estatisticas. Que importancia no desenrolar geral da existencia? Gotta d’agua pura e crystallina a cahir no abysmo... Não era, mesmo por isto, um afortunado da sorte? Sahia da vida sem as miserias e desillusões que a vão assaltando... limpo de toda a poeira e lama...

Procurava distrahir o espirito; mas ahi se me prenderam as vistas insistentes, teimosas, hypnotisadas aos olhos então largamente abertos de Alberto, não mais desassocegados e em tresvario, mas num movimento lento de oscillação, como que destacados das orbitas a se mexerem um tanto ao acaso. De quando em quando parecia que se sumião, cahidos, sem mais apoio, dentro do craneo vasio, oco. E me diziam, assim mesmo, tanta cousa, me falavam de tantos mysterios, me interpellavam com tamanha anciedade!...

Interrogavam supplices, meigos, quem, em boa hora, lhe déra do mundo de além idéa outra, que não de simples terror e aniquilamento para sempre, n’aquelle instante tão proximo da suprema partida.

Sim, devéras, lá, fóra d’aqui, tambem sóes, tambem flores, esperanças, carinhos? Tambem o conchego doce, protector de entes bons, superiores, compassivos? Palavra?! Podia confiar? Não o quizera enganar... A leval-o, d’alli a pouco, longe, longe, pela immensidade na desconhecida viagem, o regaço de algum anjo, faria vezes da estremecida mãi? Para que, porém, deixal-a? Para que despedaçar o coração d’aquelles fulminados pais? Amavam-n’o tanto, tanto!

Quem incutira, porém, a esse homem desconhecido o poder de saber quanto se passava da outra banda da vida? Talvez fosse um d’esses anjos destinados a carregal-o, não era?... Ah! o disfarce mostrava-se bem claro! Por que, porém, não se deixava enternecer? Não via a pungente dôr dos que o cercavam? Pedisse a Deus misericordia... consentisse-lhe o viver... A ninguem, nunca fizera mal algum... Promettia tudo... não por elle, mas pelos paes... Passaria os annos a estudar, a dispensar o bem, o amor, a pagar a divida solemne de interminavel gratidão! Seria quieto, reflectido, honesto, caridoso, a sacrificar-se pelos outros, por todos... amigo dos humildes, dos mendigos e desgraçados!... Mas tivesse pressa... do contrario não o acharia mais na terra... Bem sentia a morte... sim, a morte...

Passou mais um trem de suburbios com assustador estampido:

Ouvisse, ouvisse!... Ahi vinha ella... Que medo!... E já estava como que sosinho... via-se na cova estreita com um mundo de terra por cima do seu corpinho tão batido pela molestia!