—Não, não! Havia de ter coragem... dominava o seu terror, embora bem justo, bem natural!... Creança, saberia morrer como homem... Poderia estar chorando nos braços de pae e mãe, mas para que? Para tortural-os mais? Quem sabe se não haviam de morrer tambem alli! Viessem, viessem para cobrirem de flores o cantinho que eternamente o acolheria no cemiterio, alvo, consolador com tantas cruzes e anjinhos de marmore a rezarem.

Debalde buscava eu fugir á obsessão. Duas vezes me levantei; mas irresistivelmente voltava a conversar com aquelles olhos, cada vez mais resignados, penetrantes e de dolorosa eloquencia, cheios de sorprezas, desconsolos e revoltas, com energia sopitados...

É preciso, é preciso: que fazer?

Bem quizera estar pensando, como menino, em cousas futeis e risonhas e da sua idade, mas tinha por força que cuidar no que ha de mais serio e triste, na morte... morte!

E já as pupillas negras, virando de vez em quando, se escondiam sob as arcadas orbiculares, buscando vêr além, para dentro do pobre organismo combalido... E já se fixava, no bater lento das palpebras pesadas, plumbeas, impenetravel, o branco das escleroticas, como alvacento panno cahido de scena finda, acabada...

E os bicos de gaz illuminavam de fóra, intermittentemente, o vagão, como que em fantasmagorica visita, dando repentina luz a todos os recantos ou deixando-o de subito em completa escuridão...

Iamos chegando, e no rostosinho de Alberto se desdobrava o pallor dos ultimos instantes. Desbotava-se a rubidez das faces incendidas e afilava-se, a mais e mais, o nariz correcto, aquilino.

Já a luz electrica chegava até nós.

E o trem estacou com o baque de definitiva parada, salteado pelos carregadores em grita: «Malas, malas! bagagens! n. 20, n. 53!»

—Leve ao hombro o seu filho, disse eu para o pae, elle está...