Sabem os possiveis e complascentes leitores, que cousa seja talento, em todo o sertão d’este nosso Brasil?

Força physica, nada mais.

Continuemos agora, caso valha a pena estarem aturando esta massada, mas disso não sou juiz. Como conheci, de passagem, a tal ciganinha levada da breca e lhe admirei, ha uns pares de annos, a notavel belleza, tomei a peito contar as suas façanhas e capetagens.

—Pois eu cá, replicou o brichote do José Bispo, entendo que talento para muito serve... Olhe, quero ser bom; escute um pouco...

—Solte então o meu braço...

Iche, lá isso não. Você disparava que nem veado matteiro. Assumpte... entregue-se por gosto a mim e de amanhã em diante a bóto de portas a dentro como minha caseira... D. Cula, sua mãi, virá morar commigo... Nada lhes hadefaltar...

Arfava de indignação, odio e pavor o peito da pobresinha.

Vinha a tarde descendo depressa e, distante, á beira do rio, avisava uma anhuma póca, com intervallado cantar á maneira do bater de dous páos seccos, que a noite não tardava. A luz que ainda havia, tenue, esbatida, descia de umas nuvens grandes, de intenso vermelho, a purpurejarem todo o lado do poente.

Deu então Gêgéca novo arranco para traz com tal impeto, desta vez, que o seu aggressor teve que avançar dous passos. Quasi de todo lhe quebrou o animo esse esforço improficuo.

—Juro-lhe, bradou ella com a respiração offegante e immenso accento de verdade e angustia, que nenhum homem ainda me tocou no corpo. Tenha pena de mim, José Bispo. Se ha virgem n’este mundo, sou eu... Não me desgrace... prefiro morrer...