Estava D. Cula totalmente besta do que via e ouvia.
—Gêgéca aceita, disse afinal intromettendo-se, ainda que a vacillar e com uns laivos de rubra emoção na eterna pallidez das faces; sem duvida ella aceita... Que póde mais quérer n’este mundo? É desafiar a sorte.
—Cale a bocca, mamãe, exclamou impaciente Gêgéca que parecia concentrar-se em rapida e necessaria meditação.
Afinal, voltando-se para José Bispo, respondeu-lhe com serenidade:
—Pelo passo que o senhor deu hoje, perdôo-lhe do fundo do meu coração tudo quanto me fez. Acabou-se o odio, e odio bem justo, que eu lhe votava. Não posso, porém, attender ao seu pedido, que tanto me honra e me levanta aos meus proprios olhos.
Não é que a diabinha da rapariga falava bem? Ora, sejam justos, leitores da minha alma. De entre os 40.000 assignantes da Gazeta de Noticias não haverá meia duzia mais condescendente?
—Pelo meu genio, continuou ella, e com os seus arrebatamentos, não podiamos ser senão dous infelizes, uma vez amarrados pela lei do casamento. Falando-lhe assim, dou-lhe prova de que não sou tão desajuizada como a muitos pareço. Por outro lado, e lado muito grave, que faria o senhor da desgraçada Perpetua, com quem vive ha tantos annos? Que seria dos seus quatro filhinhos, já tão abandonados?
—Mas, ménina, buscou inquieta interromper D. Cula, para que... se metter assim na vidá... dos outros?...
Via, com effeito, José Bispo quasi a estalar de roxo, todo apoplectico, tolhido de vergonha, embasbacado.
—E o que é a pobre Perpetua, perguntou com voz vibrante a Ciganhinha á mãe, toda estarrecida, senão a D. Cula lá da praça?... Nem lhe faltam pancadas e tundas, além do peso dos quatro pequenos... Só agora o abandono...