Era esse moço parente chegado dos Confucios e Socrates da familia dos Craveiros, ligados por laços de affinidade com os Moraes, Abreus, Fleurys, Rodrigues, Jardins e Bulhões, gente toda de alto cothurno no meu Goyaz, descendentes até do celebre conde, depois marquez de São João da Palma, antepenultimo capitão-general e governador da Capitania (apresentar armas!) e que lá fez maravilhas nos seus 5 annos de mando absoluto e violento.
Demais, todos na minha terra, quasi sem excepção, pretendem provir d’aquelle grande papão; e isto tem alguns inconvenientes.
Querem uma prova?
Em certo dia, um versejador de occasião, candidato a não sei que logarzinho, foi procurar, aqui, no Rio de Janeiro, um dos filhos do marquez—esse bem averiguado. Toca a esperal-o, e nada do protector dignar-se apparecer.
Esgotada a paciencia a contemplar um retrato, tamanho natural, do venerabundo e temivel fidalgo, todo coberto de dourados e fitões, prégou-lhe afinal o tal pretendente embaixo na moldura com um alfinete uma quadrinha altamente crespa e pornographica, relativamente á honra materna e ao esquecimento em que essa mãe era tida. Que desaforo!
E safou-se, deixando o mote, sem esperar pela glosa. Que desaforo!
O tal marquez (cumpre-me, entretanto, dizel-o a bem da verdade historica) deixou em todas as capitanias onde esteve e governou um mundo de filhos naturaes... O excellentissimo Sr. capitão-general era povoador por excellencia. Comprehendia—e tinha razão—que o Brasil, antes de tudo, precisava e ainda precisa de gente. Ia, pois, no desenvolvimento do seu programma administrativo, applicando com enthusiasmo o multiplicamini de Jehovah, nem melhores serviços podia prestar á corôa de Portugal, deixando ás forças da natureza fecundada o cumprimento do outro preceito, crescite! e das mais obrigações, pagar impostos, ser soldado d’El-Rey, etc., etc.
Estou porém, sahindo de mais da nossa estrada.
Ah! se eu tivesse ensejo, desfiava muita cousa interessante sobre Goyaz, lembrando tambem os muitos homens notaveis que elle tem dado á patria, pois me peza, devéras, o menospreço com que por ahi costumam falar do meu cantinho natal.
Conhecem, por ventura, o padre Manuel José Fogaça, que foi prior da igreja de Lourinhã, em Portugal, e bispo resignatario de Malaca? Pois bem, era filho de Goyaz. Conhecem Alvaro José Xavier, commendador de Christo e brigadeiro reformado, presidente da junta do governo provisorio? E Luiz Antonio da Silva e Souza, eleito para as côrtes de Lisboa, mas onde não esteve, professor publico de grammatica latina?