—Sim, sim, concordou Anselmo; nada mais quero.

Começou então uma dessas declarações de amor, como tantas no fundo ouvira ella, d’esta feita, porém, n’uma linguagem nova, sonora, arrebatada, que dolorosamente lhe acariciava os ouvidos, a deixava enleada, com a cabeça um tanto vertiginosa.

Presa de sincera paixão, foi Anselmo por vezes eloquente n’aquelles surtos de elevada e platonica poesia, que é o perfido visgo das crueis e irremediaveis exigencias physicas.

—Gêgéca, dizia elle, vejo, presinto que você deve amar-me um bocadinho, mil vezes menos do que eu, mas sempre alguma cousa, e o amor não pensa, não calcula, o amor é todo misericordia, é um sacrificio, dá vida, não mata, não extermina!

E com fogo lhe prendia as mãos frias nas pontas.

—Por certo, balbuciava ella, você não é como os outros que me falaram e sempre me falam em paixão... mas, afinal, e apezar das minhas imprudencias, sou uma rapariga honesta... tenho sabido resguardar a minha honra... que será de mim?

—Não lhe dê isto cuidado... leval-a-ei commigo...

—Sim, replicou a Ciganinha ironica e mais senhora de si, como cousa vergonhosa, não é, ás escondidas? Não chamam por ahi malas essas pobres creaturas que seguem com os viajantes? Ia eu ser como ellas, simples mala! E minha pobre mãe, que não póde mais viver sem mim?

—Ah! verberou com real desespero Anselmo, numa explosão de ingenuo egoismo tão commum em quem ama devéras, você não pensa senão em si. Eu não valho nada; nasci para soffrer, para ser achincalhado, pisado aos pés, para soffrer como um miseravel!... Quem me tirou o somno, o comer, o beber, quem me causou mal tão fundo e incuravel, é que lhe deve dar remedio... É de justiça, é de equidade! Isto brada aos céos...

Dubio luar clareava então um pouco os espaços, luar, porém tão pallido, tão desmaiado!... Se jámais D. Cula pudesse fazer de lua, havia de passear assim, desmaiada, chloro-anemica, pelo firmamento afóra.