Inclinando-se para ella, lembrou então Mario Campos, com voz soturna e emocionada, scenas do passado e passado bem proximo ainda—mezes quando muito—a sua posição de homem casado, e bem casado uns bons pares de annos, ante as seducções e inexplicaveis faceirices, quasi facilidades, de moça formosa e solteira. Tanto fizera—oh! escusado era querer protestar; a sociedade toda havia sido testemunha e sabia ser justa—que afinal perdera elle a cabeça, e lhe consagrara paixão céga, invencivel, de inaudita violencia. Méra victima ou não do artificio e dólo, durante não pouco tempo se suppuzera devéras amado. Rico, feliz, esposo de uma mulher bondosa, bonita e terna, de repente se sentira, sob o influxo d’aquelle sentimento novo insuflado com raro talento suggestivo, o ente mais desgraçado do mundo, avassalado irremediavelmente por influencia que zombara de todo os seus planos e tentativas de resistencia. Que fazer então da vida, longa, tão longa n’aquelle horrivel desencontro! Como readquirir a felicidade perdida para todo sempre?

—Oh! interrompeu ella irritada e sardonica, ha tantos modos de se ser feliz...

Podia ser, sobretudo para aquelles que não calculavam o alcance dos actos e palavras. E por falar em palavras... certa noute, por exemplo, n’uma volta de bond do Jardim Botanico, ao luar, dissera-lhe ella uma phrase, que lhe havia calado no espirito para nunca mais de lá sahir. Fixara-se-lhe dentro d’alma com letras de fogo, que a cada momento do dia e da noite lhe luziam ante os olhos deslumbrados. Não se lembrava?

—Não; respondeu Sofia com sinceridade e algum assombro. Que poderia eu ter dito tão terrivel e sinistro? Não me metta medo.

Quiz sorrir; mas o sorriso pairou-lhe indeciso, frouxo, á flor dos labios, d’esses sorrisos chamados amarellos.

Tivesse ella ou não medido o effeito, houvesse ou não sido mais uma simples leviandade, a sua bocca a proferia, lembrasse-se bem do seu dito: «Ah! se você fosse livre!»

—Ora, protestou Sofia empallidecendo seu tanto, uma hypothese...

E agora não estava elle livre, bem livre? Que significava, nessa nova situação o seu inopinado retrahimento? Por que se mostrava ella tão esquiva, tão differente dos tempos de out’rora, decorridos apenas seis mezes empregados n’essa indispensavel—e apoiava no vocabulo—viagem ao Rio da Prata? Quando suppunha encontral-a vibrante de amor e saudades como elle, quando julgava alcançar a felicidade almejada e a que tinha feito jus—oh! sim, tudo, tudo empenhara para conseguil-a—ahi a achava radicalmente mudada, outra, de todo outra! Por que? De que servira então aquelle anno de ardente affecto, pelo menos assim acreditara, de tamanhas promessas e juras? Não teria elle sido senão mero joguete de passageiro capricho, pretexto para ensaiar simples armas de namoradeira?

Sofia Dias mostrava-se cada vez mais impaciente. Fez até gesto de quem ia levantar-se.

O outro continuava.