Por que se déra toda aquella comedia? A sua infeliz mulher alvo de tantos remoques, motivo de continuos reparos e criticas, exposta a incessante ridiculo, até se lhe tornar positivamente insupportavel. Não tinha gosto, não sabia vestir-se, escolher chapéos; innumeras settas farpadas, envenenadas, na sua mal ferida vaidade de marido. Meros gracejos? Brinquedos de um coração máo, ardiloso, cruel, insensivel? Oh! tomasse tento, aquella hora era decisiva. Passada ella, tiraria vingança tremenda; era da raça dos que não perdoavam.
E, offegante, n’uma phrase curta, dura, contava episodios até da infancia, em que se affirmara a irresistivel disposição ao desforço violento por qualquer offensa ou injuria recebida. Sua mãe lhe dissera um dia: «Menino, você com este genio ha de acabar mal!» Quem sabia se o horoscopo não se ia realizar. Uma cousa lhe jurava. Alguem havia de pagar. Não se adiantara tanto, para ficar, perante todos, como triste symbolo de irrisão e escarneo, menospreço e miseria.
E os seus olhos chammejavam, emquanto dolorosa crispação dos labios lhe erguia o canto da bocca. De longe, parecia estar sorrindo, todo entregue a animada, ainda que banal, conversa de baile.
Sofia o ouvia com expressão de extremo cansaço. Afinal rompeu o silencio.
Confessava que a elle assistia alguma razão. Andára mal, concordava; solteira e pretendida por não poucos, não devera nunca ter alimentado um sentimento reprovavel, que não tinha razão de ser. Sahira do seu papel natural e pagava as culpas da leviandade, sempre amarga. N’aquelle tempo não media as consequencias de uns olhares mais quebrados e imprudentes e os effeitos perigosos de qualquer namorosinho. Aquillo lhe serviria de lição. Fôra, aliás, bem sincera na hora em que pronunciara aquellas palavras, sem comtudo lhes dar maior significação. Alludira, com real pezar, a cousa irreparavel e contra a qual não havia luctar. E fôra essa convicção que, pouco a pouco, lhe abrira os olhos, desviando-a do caminho errado que seguira. Não diz o proverbio que o que não tem remedio, remediado está? Na ausencia d’elle, Mario, tanto lhe girara no pensamento essa verdade, que afinal pudera dominar-se. Quem, aliás, havia de imaginar, que tão cedo a pobre D. Beatriz sahiria d’este mundo, desligando com o seu desapparecimento laços que deviam ser eternos? N’isso o Barroso pleiteára a sua mão e ella não achara motivos para o repellir, bem parecido, intelligente, em bella posição politica, ministro talvez breve; que dizer contra esse candidato?
—E você o ama, Sofia? perguntou a custo, arquejante, o malaventurado Mario.
—Amal-o, não, mas emfim gósto d’elle, não ha duvida. Creio que sou refractaria a paixões violentas, arrebatadas. É outro o meu genero...
—Sim, observou Mario, ludibriar áquelles a quem prende na rêde dos seus olhares fataes.
Sofia deu um muchôchosinho: