—Bom, temos melodrama...
Amiudadas vezes passava o moço o lenço pelo rosto, limpando gottas de frigido suor.
Insistia, porém.
Por que deixar de realisar o que era tão natural, uma vez apartado o unico obstaculo que se interpuzera entre os dous? Por ventura, valia elle menos do que esse intruso, o tal Barroso? Era, de certo, um pouco mais velho; mas tinha por si a precedencia. Ninguem estranharia aquelle casamento com quem tanta corda lhe déra n’uma época em que não deveriam ter sido aceitas as suas assiduidades. Culpa tivera ella, induzindo em erro tanta gente.
Sofia ensaiou um gracejo e com tom de remoque:
—Para nós, solteiras, o senhor... você tem um grave defeito: é viuvo.
Pelos olhos de Mario relampejou um raio de odio e ferocidade tão visivel e intenso, que a moça estremeceu. Com os dentes apertados sybillou a resposta:
—Quem me fez viuvo, ouviu? não tem o direito de me attirar isto em rosto, comprehende?
E o seu olhar torvo, dardejante, desvairado, buscava ir ao intimo de Sofia, explicando-lhe talvez mysterios terriveis, possibilidades de apavorar, completando a confissão confusamente bosquejada.
Por instinctiva defesa fechou-se a moça, fazendo poderoso esforço para conservar-se calma, serena, alheia e superior a qualquer connivencia, por longe que fosse.