Mataria, oh, sim! aquelle homem... Tudo isto, porém, não fôra tão banal? Que valia esse rival de occasião? Eliminado da scena, outro o substituiria sem demora. Por tão pouco não se abate nem recúa a perfidia da mulher. Para que, aliás, essa suppressão de vida? Em muitos casos não é um favor a morte? Não representa a cessação da dôr, do soffrimento, da vergonha? Por ella não suspirava elle, como supremo bem? Sim, tambem tinha que morrer. No perpassar de todas as odientas combinações, intoleravel se lhe afigurava continuar a existir. Reservava essa tortura para Sofia; mas como transmudar tamanha concessão em martyrio constante, em angustias sem nome, em indizivel supplicio, calcando para sempre aos pés o seu orgulho, conspurcando-a perante a sociedade toda, arrastando-a com eterno labéo, imprimindo-lhe na fronte signal de inapagavel ferrete? Como?

Comparava os tempos anteriores ao amaldiçoado amor com tudo quanto occorrera, uma vez ateada a criminosa e já tão flagiciada paixão. E a lembrança da esposa, tão boa em sua discreta feição, o enchia de pavor. Fugia de aprofundar comsigo mesmo o incerto mysterio... aquella janella aberta por noite frigidissima, em Buenos-Ayres, ella a dormir fraca dos pulmões, presa então de perigosa bronchite... depois a pneumonia dupla... as vascas de terrivel agonia num estreito quarto de hotel... Que momentos agora tão claros á sua memoria... Parecia os estar vendo; bastava fechar os olhos. A pobresinha, resignada, quasi a sorrir, emquanto as lagrimas lhe rolavam silenciosas pelas faces, apertando a mão assassina, implorando protecção contra a morte que chegava... elle, com o pensamento fixo no Rio de Janeiro, ardendo de impaciencia, brutalisando-a, doudo por vêr tudo acabado, concluso, findo, espreitando, espiando o ultimo estertor, o derradeiro suspiro, a convulsão suprema, que ia desatar as cadeias do abominado captiveiro... Que indigna contraposição! De um lado tanta pureza e resignação; do outro tamanha maldade, tão satanica e baixa ferocidade. E para que o monstruoso attentado? D’elle agora emergiam obrigatoriamente outros crimes, novas infamias.

Sentia-se condemnado. Justiça inteira havia de ser feita e pela propria mão. Era ponto decidido, indiscutivel já no seu espirito. Ficaria, porém, impune a causa de tantos males? Impossivel! Para beneficio de todos, cumpria esmagar ente tão pernicioso, inutilisar de vez encantos tão perigosos e lethaes.

E parafusava, sem se lhe deparar nada que apaziguasse um tanto as iras exasperadas, em fremente ebullição.

Depois... serenou. Mostrou-se por toda a parte altivo, calmo e indifferente. Tornou a frequentar theatros e logares, fallando no proximo enlace de Sofia com desembaraço e naturalidade, applaudindo-o até. Declarou-se curado de mal entendidas e pueris velleidades. Chegou a cumprimentar a moça e, uma feita que se encontrou cara a cara com ella apertou-lhe a mão sem nenhum constrangimento ou perturbação.

A varios amigos falou em proxima partida para terras longinquas, e ás rodas habituaes levou um todo, senão risonho, pelo menos de tranquilla e digna compostura.

Publicaram-se então os primeiros proclamas do casamento de Lucio Barroso com Sofia Dias, a qual se suppunha afinal livre de qualquer complicação, toda radiante de alegria e felicidade, cada vez mais formosa, faceira e seductora, nos labios sempre róseo sorriso sobre nacarados dentes, bocca humida e appetitosa de tentar um santo.

Numa bella manhã, sobresaltou-se a cidade em peso. Acabára de suicidar-se com um tiro de revolver Mario Campos.

Sem declarar o motivo d’esse acto, recommendava que dessem immediata publicidade e prompta execução ao testamento por elle depositado, dias antes, no cartorio do tabellião Matheus.

N’esse documento, feito de accordo com as mais restrictas formalidades, distribuia varios donativos a institutos de caridade e legava alguns bens a parentes da sua mulher. Terminava, porém, pelas seguintes e terriveis palavras, que causaram escandalo enorme, ecoando por todos os cantos da capital: