«Eternamente grato a não poucas provas de affeição e condescendencia, deixo os remanescentes, que calculo em 200 contos de réis, á minha amante D. Sofia Dias, devendo esse legado transmittir-se em qualquer tempo á successão ligitima ou illegitima, verificada em regra a filiação. Caso não seja a quantia reclamada logo, entregar-se-hão annualmente os juros á Misericordia.»
Dentro, duas cartas da imprudente moça, que se prestavam a muitas interpretações.
No meio da indignação geral, do profundo abalo de uns, do revoltado pasmo de outros, da pungente ironia dos maldizentes e da compungida piedade dos bondosos, rompeu Lucio Barroso com estrondo o casamento; e a malaventurada Sofia, salteada de febre cerebral, por largas semanas esteve entre a vida e a morte.
Rumorejou-se na possibilidade de melindrosa justificação perante os tribunaes; mas, afinal, a familia toda, mãe e duas filhas menores, depois de mezes e mezes de sumiço, partiu para a Europa. Nunca mais se ouviu fallar, se não vagamente, em Sofia Dias; parece que por lá se casára.
Ainda não foi até hoje levantada a ominosa herança... Quem nos diz, que será sempre repellido o maldito e infamante legado?
Assim seja!