CAMIRAN A KINIKINAO
EPISODIO DA INVASÃO PARAGUAYA EM MATTO GROSSO


CAMIRAN A KINIKINAO

Camiran era uma infeliz velha kinikináo, que passava os dias a prantear a morte de um filho unico, baleado em acção de guerra pelos paraguayos.

Os seus olhos não derramavão lagrimas; mas o seu corpo mirrado pela consumpção mostrava que uma dôr immensa ia aos poucos lhe devorando a vida. Tudo era motivo para recordar-lhe o valente mancebo, que o chumbo inimigo havia feito cahir para sempre nos campos do Aquidauana. O sol que irrompia deslumbrante, a lua que despontava serena, a nuvem que corria nos céos, a chuva que humedecia o solo, o vento que gemia ou a brisa que sussurrava, trazião-lhe de prompto á lembrança algum facto que se prendia á existencia de seu adorado filho.

Então Camiran, em voz alta e tremula, n’um canto que mais tinha de resignação do que de desespero, contava como e quando elle havia contemplado o sol ou a lua a nascerem, quando fitára a nuvem passageira, se abrigára da chuva, contendêra com o furacão ou refrescára o corpo ás caricias de branda aragem.

Vivia agora da caridade dos seus, caridade, porém, sem vexame para quem a recebia, por isso que todos á porfia vinhão expontaneamente depôr em sua choupana algum alimento escasso sem duvida, pois para todos escasseára, mas dado de coração.