Não havia dia em que Pacalalá voltasse dos seus trabalhos sem trazer para a mãi um cesto de carás ou de raizes de aipim, alguma fructa saborosa ou miolo assucarado da macaúba, que os indios chupão com delicia.
Ás vezes a caçada diligente do rapaz fazia apparecer na refeição habitual a delicada carne da jáo, da aracuan, jacutinga e inambú; mas o preço da polvora e do chumbo tornava raras essas occasiões.
Quando Pacalalá vinha do roçado, Camiran, sem dizer palavra, tomava os alimentos e corria a preparal-os. Elle tirava as calças que lhe servião para o gyro habitual, embrulhava-se n’uma julata e ia deitar-se na rêde de tiras de couro, a fumar n’um grande cachimbo de barro.
Assim ficava longas horas, fitando um ponto no chão e com o espirito em torpor.
As idéas de Pacalalá propendião para o congraçamento com os habitantes de Miranda; entretanto elle devéras se affligia da má fé e dobrez que os brancos punhão sempre n’essas relações.
—Cuidado com os portuguezes, dizia elle para os seus quando consultado; são nossos iguaes e não nossos amos. N’esta terra não deve haver duas gentes: uma que mande e outra que trabalhe. Todos devem trabalhar.
Uma vez ameaçou até vir ao Rio de Janeiro apresentar as suas razões de queixa e com isso produzio algum abalo no animo de uma das autoridades da villa, tão arbitraria quão subalterna.
—Se nos atormentarem muito, irei até a côrte fallar com o Imperador, que é o capitão grande. Eu sei que elle não quer que os indios sejão maltratados pelos portuguezes.
Já se vê que Pacalalá tinha direito a mais consideração entre os kinikináos do que qualquer outro.
Se não reagia, pelo menos protestava sempre.