Era, porém, chegada a occasião de justificar a confiança que inspirava, e elle não hesitou em aceitar a commissão que lhe impunhão o respeito e a consideração de sua tribu n’aquella difficil emergencia.
Sem perda de tempo, Pacalalá ordenou o abandono da aldêa do Agaxi. Separou mulheres, crianças e velhos, carregou-os de tudo quanto podia ser mais facilmente transportado e entregou esse grupo á direcção de Flavio Botelho, que devia dirigir-se ao porto do Canuto, no rio Aquidauána, d’ahi a 8 leguas, para embrenhar-se depois na serra de Maracajú.
A romaria partio; não sem alarido, imprecações e gemidos. As velhas sobretudo levantavão uma grita da mais completa desesperação.
Ião levando á cabeça enormes trôxas, moveis até, ou vergadas ao peso do nadô, grande rede de malhas em forma de saccos suspensa por uma tira de couro que applicão de encontro á testa.
Depois de deserta a aldêa, Pacalalá reunio trinta homens validos e á frente d’elles marchou para Miranda a saber o que convinha fazer.
A estrada do Agaxi para a villa estava cheia de fugitivos, indios em grupos, outros isolados, homens montados a correrem, velhos a se arrastarem de cançados, crianças perdidas, mulheres desamparadas e familias inteiras, umas a pé, outras mettidas em carros de bois, que caminhavão aguilhoados por impaciente ferrão.
Toda a população estava em movimento e, cousa digna de reparo, n’essa occasião desastrosa, não se davão factos de violencias, roubos e assassinatos, tão faceis no meio da desordem geral.
—Para onde vão vocês? perguntou a Pacalalá um mineiro, que desanimado da morosidade dos seus bois de carro estava parado ao meio da estrada, cercado da familia em pranto.
—Para Miranda, respondeu o indio.
—Pois então me levem a minha mulher e estas tres crianças. Todas andão bem a pé e depois de amanhã estou batendo na villa. Fico para esconder o meu trem no mato.