O padre Monte sabia, e tinha consciencia, de que praticava o bem com satisfação e alegria; conhecia a nobreza natural de seus sentimentos; repellia o mal, como o herminho foge do lôdo, mas não sentia em si essa uncção, esse fogo sagrado, essa crença immensa que elle suppunha necessaria para bem cumprir com a missão que as circumstancias, mais do que a vontade, lhe havião imposto.
Quantas vezes, ao celebrar o santo sacrificio da missa, não era obrigado a fazer um esforço sobre si para chamar a attenção que lhe ia fugindo e retel-a, sobre os versiculos que os labios ião machinalmente recitando? Quantas vezes não sentio elle frôxos os braços, quando erguia a hostia divina ou o calix que ia receber o corpo e sangue do Senhor! De certo não erão elles o devido sustentaculo para tanta grandeza... Faltavão-lhes aquellas fibras que irradiadas do coração estremecem ao impulso gigante da fé.
O padre Monte procurava debalde conforto na oração, no estudo e na meditação dos textos sagrados.
O anjo das trevas fazia penetrar até no seu espirito a duvida, tunica tremenda, cilicio de dôres que lhe constringião o peito a tirar-lhe o folego.
Então de seus olhos rompião lagrimas ardentes, e só no somno—o grande procrastinador do soffrimento—é que achava refugio.
Não houve uma unica d’essas occasiões, em que na sua mente se reproduzião os tormentos de Santo Antonio e S. Jeronymo no fundo da Thebaida, que lhe podesse lembrar uma victoria completa sobre si, e lhe proporcionasse d’essas alegrias immensas que cercão os triumphos completos.
Havia no imo do seu peito como que uma recordação vaga do mundo que elle não conhecia, como que um desgosto em vêr-se arredado de prazeres inebriantes e idéados, uma aspiração inquieta, uns fermentos de revolta.
Odiando a hypocrisia, fugindo da dissimulação, recebia o padre Monte as homenagens á sua virtude como outros tantos sarcasmos, castigo cruel para a sua alma indomada senão indomavel.
N’essa disposição de espirito, facil era vêr em tudo o peccado, odial-o em cada passo da vida e, abrindo lucta com elle, não sahir sempre vencedor.
D’ahi terrores sem fim, macerações, lagrimas: d’ahi incerteza do futuro e pavor.