O padre Monte quizéra ser o clerigo que a sua consciencia lhe retratava; era tão sómente aquelle que pautava o seu procedimento pelas restrictas regras que devêra seguir, e assim mesmo quanto já se distinguia d’entre os seus companheiros, quanto subira no conceito dos outros, da população e de seus superiores!...

Um dia elle suppôz-se perdido e durante algumas horas arrependeo-se profunda e amargamente de não haver consultado o coração e as forças antes de se alistar na milicia de Deos.

Foi com a vista de uma mulher.

Estava elle dizendo missa com a severidade habitual e até n’aquelle dia não fôra assaltado das criminosas distracções. Ao voltar-se, porém, no altar para abençoar o povo sentio um abalo immenso, produzido por dous olhos cravados n’elle, olhos tão grandes, languidos e cheios de fervor que a vista se lhe turvou. Desde aquelle momento não soube mais o que fazia.

Suas mãos tremião; o sangue affluio-lhe ao coração e tropego desceu os degráos do altar. Nem sequer se ajoelhou como despedida ao lugar em que havia sacrificado; nem sequer podia orar para affastar do espirito vacillante aquella fascinadora visão.

Despio ás pressas as vestes sacerdotaes e voltou ao adro da igreja.

Levantava-se então a possuidora daquelles olhos perigosos.

Era uma d’essas infelizes que desfolhão as corollas de sua belleza ao sopro gélido da prostituição.

O padre Monte voltou á sachristia possuido de terror. Pedio logo confissão a um velho sacerdote e aos pés d’elle abrio o coração macerado.