Fallou; contou tudo quanto soffrera; descortinou os padecimentos de sua alma timorata; as duvidas que lhe assaltavão a intelligencia; a luta que travára com a vacillação; o desejo ardente de crença, de fé viva, de convicção, e desfeito em lagrimas revelou a sua ultima e grave macula, que parecia aos seus olhos ir cada vez mais crescendo para devoral-o, tragal-o como abysmo insondavel e a que não podia fugir.
A querer dar consolo áquelle espirito malferido e podel-o fortificar, fôra necessario se identificar com elle para então de sangue frio arcar com cada um de seus terrores e em cada angustia levar com delicadeza o balsamo do bom conselho.
O velho padre era intelligente, mas faltou-lhe esse tacto, a intuição do argumento amoroso que se insinua e não se impõe. A sua pratica foi dialectica e não convincente; demais elle pareceo não dar a devida importancia a todos aquelles factos intimos, e tratou-os senão como abusões, pelo menos como trerores de uma consciencia exageradamente meticulosa.
O padre Monte levantou-se do confessionario ainda mais afflicto. Passou uma noite horrivel, ora entregue aos remorsos cruentos que a sua imaginação alimentára, ora possuido do influxo demoniaco que lhe soprava ao ouvido o peccado com todos os seus gozos. Então via distinctamente a bella Samaritana cujos olhos, queimando-lhe o peito, o attrahião com poder sobrenatural.
O seu passado de pureza levantava-se todo para protestar contra essa tentação, mas não havia resistir: todos os musculos de seu corpo estremecião e a mente em fogo parecia um volcão.
Era uma hora da madrugada. Ventava frio e a noute estava sombria.
O padre Monte vestio-se apressadamente ardendo em febre.
No momento porém de pôr a mão sobre a chave e empurrar a porta, que para elle ia abrir-se no caminho do crime, sentio as pernas lhe faltarem e cahio desmaiado profundamente no chão da soleira.
Fôra sem duvida tocado pelo dedo irado do seu anjo da guarda, que já não podia vencer o espirito das trevas.
No dia seguinte o padre Monte tomou uma resolução heroica.