—Nhôr-não. Em Sant’Ana do Paranahyba recebi a carga que vinha de Uberaba trazida por um tropeiro; ansim ninguem poderá acertar d’onde sahiu da primeira vez.
—Então, concluiu o padre com um suspiro de allivio, eu acommodarei aqueles caixotes e escreverei para Goyaz, afim que se annuncie no Correio Official o que acontece.
—Isto fica a seu cuidado.
Á tarde o tropeiro trouxe dois fardosinhos que faziam a carga de um animal. Por cima delles estava escripto a palavra livros, com endereço a um senhor Estulano da Silva, em Cuyabá.
—Será bom, avisou o homem ao depôr os caixotes no chão, que Vossa Senhoria mande abrir este trem. O cupim póde ter dado nelle: dizem que é muito caroavel do papel escrevinhado na machina. Eu não entendo disso.
O padre Monte julgou dever pagar o importe do carreto. Praticando assim, suppunha mais desculpaveis os projectos que intimamente affagava.
Quantas horas do dia ficou o nosso vigario irresoluto a contemplar aquelles dous volumes mysteriosos, ninguem poderia pensar. Abri-los ou não, tal era o problema que se agitava em sua mente, ponto controverso discutido no fôro da consciencia com mais minucia e argumentos pró e contra, do que qualquer questão theologica nas luctas da escolástica.
Um dia, pela manhã, estava elle parado diante dos caixotes enigmaticos com o queixo apoiado em uma das mãos, quando viu de dentro de um delles sahir... um cupim!
Nunca nos fastos mais remotos da entomologia um tèrmes causou tanto abalo.
O padre Monte contemplou aquelle insecto com indignação que pouco e pouco foi se transmudando em quasi gratidão. Na verdade a sua presença era o argumento Achilles, uma razão irrespondivel para quanto antes levantar os sellos que guardavam o deposito e salval-o de perda infallivel.