O padre Monte, no sertão do Rio Verde, justificava o conceito de Philippe IV.
Bemdito o grande Cervantes, immortal para sempre! Pela magia de sua penna, quantos ainda poderão sorrir, quantos por momentos esquecérão as preocupações e os desgostos que os assaltavão!
O vigario leu pausadamente o precioso livro, letra por letra, para assim dizer. Fez como o gastronomo que beberrica um saboroso liquor e na lentidão com que o sorve, maior aroma e vigor n’elle descobre.
D. Quixote consumiu muitos mezes: era o companheiro inseparavel durante os passeios; o consolador daquellas afflicções d’outr’ora quando por acaso querião voltar; o balsamo para a tristeza e consciencia da solidão.
Depois do cavalleiro da Mancha, veio a vez do destemido Mosqueteiro.
Esse livro, o padre Monte leu n’um apice, arrastado pela imaginação cambiante de Dumas e devorou paginas com tanta precipitação que era ás vezes obrigado a tornar a lêl-as para seguir o fio da embrulhada epopéa.
Um acontecimento imprevisto veiu interromper aquellas leituras.
O vigario cahiu gravemente doente.
Uma tarde sahira a passeio pelos arredores da villa. Voltou com a cabeça em fogo e, durante a noite inteira ardeu em febre intensa. Esmagado no leito por um quebrantamento geral e abrazado em sede, não teve nem sequer forças para se arrastar a buscar a bilha d’agua, de modo que supportou o tormento feroz de Tantalo, até que pela manhã, penetrando o seu sacristão no quarto, poude humedecer os labios seccos e grétados.