Esse sacristão era um negro velho, meio apatetado e tão nullo que o seu auxilio de nada valia para o enfermo.

O padre Monte ficou entre a vida e a morte alguns dias.

Apezar de visitado por todos os moradores da villa, pode se dizer que estava em abandono. Á noite quando não delirava, tinha uma obsessão atroz.

Parecia-lhe que a morte, sentada á cabeceira do leito, contemplava-o cara a cara: e um silencio lugubre reinava por toda a parte, ao passo que a véla de cebo consumida até a base bruxoleava com luz esverdeada no azinhavrado castiçal de cobre em que era fincada.

N’essas occasiões o vigario sentia frio no coração.

De que modo iria elle comparecer perante o Eterno Julgador? Que acto de sua vida apresentaria para contrapôr a todas as suas vacillações, a todas as falhas de animo, ás duvidas que até sobre questões de principios havião tumultuado em seu espirito?

Oh! como lhe fôra grato poder crer no aniquillamento completo! Então a sua vida inutil e mal preenchida, se apagaria como a d’esses animaculos ephemeros, que nascem e morrem sem se saber para o que.

Mas não!

A morte se lhe afigurava como um genio alado, de gesto severo e figura sombria, que só esperava pelo desprendimento da alma para voar adiante d’ella e guial-a pelos espaços do infinito.