—D'aqui a tres horas estou batendo fogo.
Occasiões ha em que o sertanejo dá para assoviar. Cantar, é raro; ainda assim, á surdina; mais uma voz intima, um rumorejar comsigo, do que notas sahidas do robusto peito. Responder ao pio das perdizes ou ao chamado agoniado da esquiva jaó, é o seu divertimento em dias de bom humor.
É-lhe indifferente o urro da onça. Só por demais repara nas muitas pegadas, que em todos os sentidos ficam marcadas na arêa da estrada.
—Que bichão! murmura elle contemplando um rasto mais fortemente impresso no solo; com um bom onceiro[6] não se me dava de acuar este diabo e metter-lhe uma chumbada no focinho.
O legitimo sertanejo, explorador dos desertos, não tem, em geral, familia. Em quanto moço, seu fim unico é devassar terras, pisar campos onde ninguem antes puzera pé, vadear rios desconhecidos, despontar cabeceiras[7] e furar mattas, que descobridor algum até então haja varado.
Cresce-lhe o orgulho na razão da extensão e importancia das viagens emprehendidas; e seu maior gosto cifra-se em enumerar as correntes caudaes que transpoz, os ribeirões que baptisou, as serras que trasmontou e os pantanaes que afoutamente cortou, quando não levou dias e dias a rodeal-os com rara paciencia.
Cada anno que finda traz-lhe mais um valioso conhecimento e accrescenta uma pedra ao monumento da sua innocente vaidade.
—Ninguem póde commigo, exclama elle emphaticamente. Nos campos da Vaccaria, no sertão do Mimoso e nos pantános[8] do Pequiry, sou rei.
E esta presumpção de realeza infunde-lhe certo modo de falar e de gesticular magestatico em sua singela manifestação.
A certeza que tem de que nunca poderá perder-se na vastidão, como que o liberta da obsessão do desconhecido, o exalta e lhe dá foros de infallibilidade.