—Morrer!...
—Não! Ha outros ... hei de dizer-lhe...
Tomou Innocencia ar grave e meio offendido.
—Escute, Cyrino, observou ella, nestes dias tenho aprendido muita coisa. Andava neste mundo e delle não conhecia maldade alguma... A paixão que tenho por mecê foi como uma luz que faiscou cá dentro de mim. Agora começo a enxergar melhor... Ninguem me disse nada; mas parece que a minha alma acordou para me avisar do que é bom e do que é mau... Sei que devo de ter medo de mecê, porque pode botar-me a perder... Não formo juizo como; mas a minha honra e a de toda a minha familia estão nas suas mãos...
—Innocencia, quiz interromper Cyrino.
—Deixe-me falar, deixe contar-lhe o que me enche o peito... Depois ficarei socegada... Sou filha dos sertões; nunca morei em povoados nunca li em livros, nem tive quem me ensinasse coisa alguma... Se eu o maguar, desculpe será sem querer...Lembra-me que, ha já um tempão, pararam aqui umas mulheres com uns homens e eu perguntei a papae porque é que elle não as mandava entrar cá para dentro, como é de costume com familias... O pae me respondeu:—Não, Nocencia, são mulheres perdidas, de vida alegre. Fiquei muito assombrada.—Mas, então, melhor; se são alegres hão-de divertir-me.—Aquillo é gente airada, sem vergonha, secundou elle.—Tive tanto dó dellas que mecê não imagina. Depois fui espiar ... cahiam tontas no chão ... pitavam e cantavam muito alto com modos tão feios; que me fizeram corar por ellas! E são os homens que fazem ficar ansim as coitadas!... Antes morrer... Parece-me que Nossa-Senhora ha-de ter pena dos que amam ... mas desampara com certeza os que erram... Se não houver outro remedio, temos que nos lembrar que as almas, quando se acaba tudo neste mundo, vão pelos céus cheios de estrellas, passeando como num jardim... Se eu me finasse e mecê tambem, punha-se a minha alma a correr pelos ares, procurando a de mecê, procurando procurando, e então nós dois, juntinhos iamos viajando ora para aqui, ora para alli, ás vezes pelo carreiro de S. Thiago, ás vezes baixando a este ermo a ver onde é que botaram os nossos corpos... Não era tão bom?
Envolvida em sua pureza como num manto de bronze, entregava-se Innocencia com exaltamento e sem reserva á força da paixão. E essa natureza pudica e delicada a tal ponto dominava a Cyrino, que invencivel acanhamento o prendia ante a debil donzella, alheia a todos os mysterios da existencia.
Por isso, ao inflammado mancebo não acudia a idéa de saltar por aquella janella e menos a de praticar qualquer acção desrespeitosa. Consumia o tempo em beijos nas mãos da namorada, em tagarelices de amor, protestos, juras, e illusões de futuro.
—Amanhã, dizia Cyrino, hei de com cuidado assumptar a seu pae ... falando no seu casamento ... depois ... hei de virar a conversa para mim...
—Papae, observou a menina, é muito bom, muito mesmo. Mas tenho um medo delle! Tem um genio, meu Deus!...