—É uma especie ... nova ... completamente nova! Mas já tem nome... Baptizei-a logo... Vou lhe mostrar... Espere um instante...
E, entrando na sala, voltou sem demora com uma caixinha quadrada de folha de Flandres, que trazia com toda a reverencia e cujo tampo abriu cuidadosamente.
Da propria garganta sahiu um grito de admiração, que Cyrino acompanhou, embora com menos enthusiasmo.
Pregada em larga taboa de pita, via-se formosa e grande borboleta, com as azas meio abertas, como que disposta a tomar vôo.
Eram essas azas de maravilhoso colorido; as superiores, do branco mais puro e luzidio; as de baixo, de um azul metallico de brilho vivissimo.
Dir-se-ia a combinação aprimorada dos dois mais bellos lepidopteros das mattas virgens do Rio de Janeiro, Laertes e Adonis, estes, azues como ceruleo cantinho do ceu, aquelles alvinitentes como petalas de magnolia recem-desabrochada.
Era sem contestação lindissimo especimen, verdadeiro capricho da esplendida natureza daquelles páramos. Tambem Meyer não tinha mão em si de contente.
—Este insecto, preleccionou elle como se o ouvissem dous profissionaes na materia, pertence á phalange das Heliconias. Denominei-a logo Papilio Innocentia, em honra á filha do Sr. Pereira, de quem tenho recebido tão bom tratamento. Tributo todo o respeito ao grande sabio Linneu—e Meyer levou a mão ao chapéu—mas a sua classificação já está um pouco velha. A classe é, pois, Diurna; a phalange, Heliconia, o genero, Papilio e a especie, Innocentia, especie minha e cuja gloria ninguem mais me póde tirar... Daqui vou, hoje mesmo, officiar ao secretario perpetuo da Sociedade Entomologica de Magdeburgo, participando-lhe facto tão importante para mim e para a sabia Germania.
Dizia Meyer tudo isto com legitima ufania e lentidão dogmatica.
Depois, com mais volubilidade e apezar de tropeçar amiudadas vezes em palavras, o que, para commodidade dos leitores, temos quasi sempre deixado de indicar, continuou: