—Sr. doutor, disse o enfermo, a minha vida é um continuo lidar de soffrimentos. Estou com este mal vae fazer cinco annos no S. João, por signal que me veio com uma grande dor na bocca do estómbago. Vezes ha que não posso engulir nada, sem beber muitos gólos de agua, de maneira que me encharco todo e fico que mal me mexo de um lugar para outro.
—E a dor, perguntou Cyrino, ainda a sente?
—Toda a vida, respondeu o capataz... O que me afflege mais é que ha comidas então que não me passam na guéla... É um fastio dos meus peccados... Boto uns pedacinhos no bucho e parece-me que dentro tenho um bolo que me está a subir e descer pela garganta...
Receitou o medico umas doses de herva de marinheiro como emetico, e fez mais algumas prescripções que o enfermo ouviu com toda a religiosidade.
No estado de perturbação moral em que se achava o joven facultativo, natural é que fosse uma coisa por outra; mais importante, porem, era a fé que suas indicações incutiam, a fé, essa alavanca poderosa da medicina, esse contingente precioso que o espirito ministra aos ingentes esforços da natureza na sua constante lucta contra os principios morbidos.
O doente de espinhela cahida accusava um peso muito forte e perenne no peito e a impossibilidade de levantar as mãos juntas á mesma altura.
Prescreveu-lhe Cyrino amargo do campo, genciana e quina, e ordenou-lhe certas cautelas firmadas na voz geral, mas com algum fundo de razão; verbi-gratia: engulir sempre a saliva e sobretudo deixar de fumar depois de comer.
O infeliz moço, ao passo que tratava de curar os outros, mais que ninguem precisava de quem nelle cuidasse, pelo menos da alma.
Via não só Meyer fazendo os seus preparativos de partida, e em vespera de deixal-o a sós com Pereira, podendo este descobrir afinal o engano em que havia laborado, como tambem a clinica quasi esgotada, aconselhando-lhe a conveniencia de transportar-se para outro ponto e continuar a interrompida jornada.
Tudo isto, e o amor a augmentar, a tirar-lhe todo o socego, a consumil-o a fogo lento...