—Mas porem creio que já é occasião, agora que nos conhecemos como dous amigos do tempo do Rojão, saber com quem lidamos. Eu, quanto a mim, me chamo Martinho dos Santos Pereira e a minha historia conto-lh'a em duas palhetadas... Sua graça, ainda que mal pergunte?
—Cyrino Ferreira de Campos, respondeu o outro viajante, um criado para o servir.
—Obrigado, agradeceu Pereira inclinando-se cortezmente e levando a mão ao chapéu. Como lhe disse ha pouco, minha historia é historia de entrar por uma porta e sahir por outra. Minha gente não é de má raça, pelo contrario; meu pai, que Deus lhe dê a gloria, possuia alguma cousa de seu e deixou aos seus muitos filhos um nome limpo e respeitado. Cada qual de nós—eramos sete—tomou o seu rumo. Quanto a mim, casei muito mocinho e fui morar na Diamantina, onde abri casa de negocio. Depois de alguns annos, uns bons, outros caipóras, morreu minha dona e mudei-me, a principio, para Piumhy e mais tarde para Uberaba. A vida começou a desandar-me de todo, e fiz logo este calculo: estar tão longe, antes afundar-me no matto de uma boa feita. Vendi minha lojinha de ferragens e internei-me até cá com tres escravos. Ha doze annos que moro nestes socavões[19] e, palavra de honra, até ao presente não me tenho arrependido. Na minha situação ha fartura, e louvado seja! nunca passei necessidade... Não posso por isto queixar-me sem ingratidão. Deus Nosso Senhor Jesus Christo tem olhado para mim, e me julgo bem amparado, sobretudo quando me lembro do despotismo[20] de miserias, que vai por estas terras fóra... Cruzes! nem falar n'isto é bom... Diga-me porém uma cousa: vosmecê para onde se atira?
—Homem, Sr. Pereira, não tenho destino certo.
—Deveras? Então está caminhando á toa?
—Eu ponho-lhe já tudo em pratos limpos. Ando por estes fundões[21] curando maleitas e feridas brabas.
—Ah! exclamou Pereira com manifesto contentamento, vosmecê é doutor, não é? Physico, como chamavam os nossos do tempo de dantes.
—É facto, confirmou Cyrino com alguma satisfacção.
—Ora, pois, muito que bem, cahe-me a sopa no mel; sim, senhor, vem mesmo ao pintar ... a talhe de fouce.
—Porque?