Não perdera o mancebo o sangue frio. Invocando a São Miguel, fez o signal da cruz na direcção dos quatro pontos cardeais; depois suspendeu a moça em seus braços e, transpondo a toda a pressa o pomar, foi depol-a junto á porta que estava entreaberta, naturalmente pelo vento.

Quase desmaiara Innocencia; entretanto, reunindo as forças pode entrar, e cautelosa correu o ferrolho interior.

Mais sossegado a esse respeito, voltou Cyrino ao laranjal e, como da primeira vez, pôz-se a percorrel-o em todos os sentidos, indagando, á nascente claridade do dia, se era ente humano ou fantasma quem delle parecia fazer joguete.

No momento em que passava por junto de uma laranjeira mais copada, viu de repente certa massa informe cair-lhe quasi na cabeça e no meio de folhas e ramos quebrados vir ao chão com surdo grito de angustia.

—Cruz! T'esconjuro! bradou o moço.

E, como uma visão, passou-lhe por perto uma creaturinha, desaparecendo logo entre os troncos das arvores.

Alli esteve Cyrino com os cabellos eriçados, os olhos fixos, os braços hirtos de terror, os labios seccos a tartamudear um exorcismo, e as pernas a tremer.

Uma voz, a certa distancia, arrancou-o desse espasmo.

Era Pereira; com a mão encostada á bocca, interpelava a um dos seus escravos.

—Faz fogo, José!... Se for alma do outro mundo ou lobisomem, a bala não pega... Se for gente, melhor.