—Que fiz eu ... na minha vida? Talvez ... enganasse os outros ... dizendo que era ... medico... Mas ... tambem curei alguns... De nada mais me recordo... Ah! sim ... uma divida de honra... Na minha carteira ... ha uns seis centos mil reis; pague ... trezentos ao Totó Siqueira, da villa; dê ... cincoenta mil reis ... a cada camarada ... meu ... o mais ... distribua ... todo ... pelos pobres, sobretudo ... morpheticos ... depois das ... missas ... que por mim ... mandar ... rezar ... ouviu? ... ouviu?
Fez o mineiro signal que sim.
Vinha a morte desdobrando as suas sombras no rosto de Cyrino. Ia-se-lhe empanando o brilho dos olhos; ficara a lingua tropega, afilara-se-lhe o nariz, e sinistro pallor mais realçava a negra cor dos seus cabellos e barbas.
Sentara-se Cesario no chão para segurar com mais geito o corpo do moribundo. Duas lagrimas vinham-lhe sulcando as masculas faces.
Ligeiro estremecimento agitava o corpo de Cyrino.
—Agora, acrescentou com voz muito sumida, chegou ... o meu dia... Mas ... eu lhe peço ... nada diga ... á sua afilhada... Não consinta ... que case com ... Manecão.
—Então, interrompeu Cesario, foi elle quem?...
—Não, não, contestou Cyrino, mas ... ella havia de ser ... infeliz... Ouviu? Promette-me?
—Prometto, respondeu Cesario com firmeza. Juro até...
—Pois bem, suspirou o agonisante, agora ... agradeço a morte... Quero apegar-me ... ás Santas do Paraiso ... e chamo por...