—Nem parece filha de quem é...

A gabos imprudentes era levado Pereira pelo amor paterno.

Foi o que repentinamente pensou lá comsigo, de modo que, reprimindo-se, disse com hesitação manifesta:

—Esta obrigação de casar as mulheres é o diabo!... Se não tomam estado, ficam jururús e fanadinhas...; se casam podem cair nas mãos de algum marido malvado... E depois, as historias!... Hi, meu Deus, mulheres numa casa, é coisa de metter medo... São redomas de vidro que tudo pode quebrar... Emfim, minha filha, emquanto solteira, honrou o nome de meus paes... O Manecão que se aguente, quando a tiver por sua... Com gente de sáia não ha que fiar... Cruz! botam familias inteiras a perder, emquanto o demo esfrega um olho.

Esta opinião injuriosa sobre as mulheres é, em geral, corrente nos nossos sertões e traz como consequencia immediata e pratica, além da rigorosa clausura em que são mantidas, não só o casamento convencionado entre parentes muito chegados para filhos de menor edade, mas sobretudo os numerosos crimes commettidos, mal se suspeita possibilidade de qualquer intriga, amorosa entre pessoa da familia e algum estranho.

Desenvolveu Pereira todas aquellas idéas e applaudiu a prudencia de tão preventivas medidas.

—Eu repito, disse elle com calor, isto de mulheres, não ha que fiar. Bem faziam os nossos do tempo antigo. As raparigas andavam direitinhas que nem um fuso... Uma piscadella de olho mais duvidosa, era logo páu... Contaram-me que hoje lá nas cidades ... arrenego! ... não ha menina, por pobresinha que seja, que não saiba ler livros de letra de forma e garatujar no papel ... que deixe de ir a fonçonatas com vestidos abertos na frente como raparigas fadistas e que saracoteiam em dansas e falam alto e mostram os dentes por dá cá aquella palha com qualquer tafulão malcreado ... pois pelintras e beldroegas não faltam... Cruz!... Assim, tambem é demais; não acha? Cá no meu modo de pensar, entendo que não se maltratem as coitadinhas, mas tambem é preciso não dar azas ás formigas... Quando ellas ficam taludas, atamanca-se uma festança para casal-as com um rapaz decente ou algum primo, e acabou-se a historia...

—Depois, acrescentou elle abrindo expressivamente com o pollegar a palpebra inferior dos olhos, cautela e faca afiada para algum meliante que se faça de[47] tolo e venha engraçar-se fóra de villa e termo... Minha filha...

Pereira mudou completamente de tom:

—Pobresinha... Por esta não ha-de vir o mal ao mundo ... é uma pombinha do céu ... Tão boa, tão carinhosa!... E feiticeira!! Não posso com ella ... só o pensar em que tenho de entregal-a nas mãos de um homem, bole commigo todo... É preciso, porém. Ha annos ... devia já ter cuidado nesse arranjo, mas ... não sei ... cada vez que pensava nisso ... caia-me a alma aos pés ... Tambem é menina que não foi creada como as mais... Ah! Sr. Cyrino, isto de filhos, são pedaços do coração que a gente arranca do corpo e bota a andar por esse mundo de Christo.