Quem estava montado e cavalgava todo encurvado sobre o sellim com as pernas muito estiradas e abertas, parecia entregue a profunda cogitação. Devia ser homem bastante alto e esguio e, como o observamos, apezar da hora adiantada da noite, com olhos de romancista, diremos desde já que tinha rosto redondo, juvenil, olhos gazeos, esbugalhados, nariz pequeno e arrebitado, barbas compridas, escorrido bigode e cabellos muito louros. O seu trajo era o commum em viagem: grandes botas, paletot de alpaca em extremo folgado, e chapéo do Chile desabado. Trazia entretanto, a tiracollo umas quatro ou cinco caixinhas de lunetas ou quaesquer outros instrumentos especiaes, e na mão segurava um páu fino e roliço, preso a uma saccóla de fina gaze côr de rosa.

Homem de meia edade, de physionomia vulgar e balorda era o camarada e, pelos modos e impaciencia com que fustigava o animal de carga, indicava não estar afeito ao genero de vida que exercia.

Em silencio e na ordem indicada, caminhava a tropinha: o burro carregado na frente, logo atraz o inhabil recoveiro; em seguida fechando a marcha, o viajante encarapitado na magra cavalgadura.

Houve momento em que, depois de algumas pauladas de incitamento, pareceu querer o cargueiro protestar contra o tratamento que tão fóra de hora recebia e, fincando os pés na areia, resolutamente parou.

Provocou a reluctancia, porém, uma chuva de verdadeiras cacetadas que echoaram longe e se confundiam com os brados e pragas do camarada.

—Burro do diabo! berrava elle. Mil raios te partam, bicho damnado! Arrebenta de uma vez!... para os infernos! Entrega a carcassa aos urubús.

Durante uns bons minutos, o cavalleiro, que fizera parar o seu animal, esperou pacientemente qualquer resultado: ou que a renitente azemola se désse afinal por convencida e avançasse ou então estourasse.

Júque, disse elle de repente com accento fortemente guttural e que denunciava a origem teutonica, se porretada chove assim no seu lombo, vóce gosta?

O homem a quem haviam dado o nome de Juca, voltou-se com arrebatamento:

—Ora, Mochú, isto é um perverso sem vergonha, que deve morrer debaixo do páu. Esta vida não me serve!...