—Olhe, Sr. doutor, continuou o camarada sentado sempre e voltando-se para o lado de Cyrino, esta minha vida é levada de seiscentos mil diabos. Nós saimos do Rio já ha mais de dois annos; não é, Mochú?

—Vinte e tres mezes, rectificou Meyer.

—Pois bem; desde esse tempo estamos a viajar como se fosse penitencia de confissão. E não é só isso, não, senhor. Todos os dias ando pelo menos nove leguas correndo aqui e acolá, dando voltas, caindo, atraz dos bichos voadores...

Júque! tentou atalhar Meyer, olhe...

—Pois é o que lhe digo, proseguiu José Pinho. Tenho hoje uma raiva daquellas porcarias todas... Nem sei porque, Nosso Senhor Jesus Christo foi crear esta sucia de creaturas sem prestimo... Emfim. Elle é quem sabe... Quanto a mim, se pudesse, atacava fogo em todas as lagartas, porque da lagarta é que nascem esses anicetos, que estão enchendo mundos... Mas, veja, Sr. doutor, lá na terra deste homem,—(coitado, é bem bomzinho e me estima muito!)—valem esses bichos mais do que ouro em pó... Tambem, se o Mochú não gostasse de mim, havéra de ser muito ingrato... Outro como eu, não encontra mais, não senhor... Tenha a santa paciencia ... não, senhor, isto é o que lhe posso afiançar.

No meio desse fluxo de palavras, Meyer fora em pessoa procurar na canastra o pente e o sabão.

Mostrando os objectos ao fallador, ordenou com energia:

—Cale a boca, Júque, cale a boca, tagarella! Vá buscar agua já; senão ... não levo vóce ao matto hoje.

Levantou-se de prompto José Pinho e meio a resmungar saiu, tomando uma das canastras.

—Esse camarada, disse Meyer depois de algum silencio e para explicar o seu procedimento, é uma pessoa muito boa ... fiel e intelligente. Mas ... fala demais. É-me precioso, porque apanha borboletas com muito talento e geito.