Na base e em torno da coma, pendem, amparados por largas spathas, densos cachos de cocos tão duros, que a casca luzidia revestida de escamas rhomboidaes e de um amarello alaranjado desafia por algum tempo o ferreo bico das araras.

Tambem com que vigor trabalham as barulhentas aves antes de conseguir a appetecida e saborosa amendoa! Em grupos juntam-se ellas, umas vermelhas como chispas soltas de intensa labareda, outras versicolores, outras pelo contrario de todo azues, de maior viso e que, por parecerem negras em distancia, tem o nome de araraúnas.[5] Alli ficam alcandoradas, balouçando-se gravemente e atirando, de espaço a espaço, ás immensidades das dilatadas campinas notas estridentes, quando não seja um clamor sem fim, ao quererem muitas disputar o mesmo cacho. Quasi sempre, porem estão a namorar-se aos pares, pousadas uma bem encostadinha á outra.

Vê tudo aquillo o sertanejo com olhar carregado de somno. Cahem-lhe pesadas as palpebras; bem se lembra de que por alli podem rastejar venenosas alimarias, mas é fatalista; confia no destino e, sem mais preoccupação, adormece com serenidade.

Correm as horas: vem o sol descambando; refresca a brisa, e sopra, rijo o vento. Não ciciam mais os boritys; gemem, e convulsamente agitam as flabelladas palmas.

É a tarde que chega.

Desperta então o viajante; esfrega os olhos; distende preguiçosamente os braços; boceja; bebe uma pouca d'agua; fica uns instantes sentado, a olhar de um lado para o outro e corre afinal a buscar o animal, que de prompto ensilha e cavalga.

Uma vez montado, lá vai elle a passo ou a trote, bem disposto de corpo e de espirito, por aquelles caminhos além, em demanda de qualquer pouso onde pernoite.

Quanta melancolia baixa á terra com o cahir da tarde!

Parece que a solidão alarga os seus limites para se tornar acabrunhadora. Ennegrece o solo; formam os matagaes sombrios massiços, e ao longe se desdobra tenue véu de um roxo uniforme e desmaiado, no qual, como linhas a meio apagadas, resaltam os troncos de uma ou outra palmeira mais alterosa.

É a hora, em que se aperta de inexplicavel receio o coração. Qualquer ruido nos causa sobresalto; ora o grito afflicto da zabelê nas mattas, ora as plangentes notas do bacuráu a cruzar os ares. Frequente é tambem amiudarem-se os pios angustiados de alguma perdiz, chamando ao ninho o companheiro extraviado, antes que a escuridão de todo lhe impossibilite a volta.