Assentemos, pois, para lá de todo o raciocinio, e perto, unicamente, da vontade de Camillo, no que a seu respeito, e a proposito do destino dos seus restos, elle, deliberadamente,{66} dispoz, e importa que, em bem da sua memoria, nós todos acatemos.
Eu creio que dos documentos transcriptos resulta bem expressa a violencia da trasladação!
A sua extraordinaria figura está acima do fetichismo publico que, por capricho, intentasse a macabra canseira de lhe remexer ou espreitar a ossada.
Alem de que aos poderes publicos impende guarda-la. Isto sim, é de seu cargo!
E se, effectivamente, á consciencia nacional,—para lá do susto romantico do enrêdo dos seus livros e do odio herdado da geração anterior contra elle, já chegou o culto devido pelo sacrificio dos quarenta annos da sua escravidão litteraria, aliás nelle{67} tão extranhamente batida de desgraça,—não se exasperem os seus devotos que não têem pouco em que empregar a admiração, por exprimirem todo o reconhecimento que lhe devem!
Assim, por exemplo, não falando já nos monumentos a erigir-lhe—que esforço não lhes será necessario para apartarem das escolas esses manuaes de mentira que por lá correm—e substitui-los por livros de excerptos seus, para que delles resulte no coração dos futuros homens o documento vivo da sua grande alma!
Esta seria, de facto, a primeira, a grande tarefa.
Mas não vale a pena forçar o Tempo. Demais que o Tempo chega sempre na altura devida!{68}
Nós, é que ás vezes, por nos darmos a impressão de que tambem governamos fóra delle, pretendemos deslocar a sua justiça. Afinal, erro de humanos; mais nada!
Emfim, Camillo poude sempre dizer como Liszt:—tenho tempo, esperarei...