De resto, affirma ainda, elle não sabia sequer assignar o seu nome, que emprestára a Rutland, e este fazia escrever no final das peças, e que, por punhos diversos, apparece tambem differentemente orthographado (Shaxpere, Shagsbere, etc.).
Quer dizer, o ordinario e baixo Shagsbere é nem mais, nem menos do que um personagem dos dramas de Rutland—o seu Falstaff, cynico e crapuloso, bebado e usurario, de quem o lord usava o nome por firmar as peças, que considerava abaixo da sua notoria prosapia!
Ah! com que opportunidade, lidos estes phantasticos passos do genial «poeta maldito», nos veem á memoria as palavras que, da sua alma, elle passou para a bocca de Macbeth:
«A vida! mas se a vida não é mais do que uma historia, contada por um tolo furioso e que não significa coisa alguma...»
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Emfim, sahimos a custo dos multiplices enredos da sua vida, pela unica porta aberta ao mais dos criticos—a da sua Arte, instruida da sua primeira tradição, tambem a unica verosimil.
Quanto ás extravagancias possiveis e até provaveis, antes da ida definitiva para Stratford,—mais do que o conhecimento das suas ficcionarias biographias, nos esclarece a historia da côrte de Elisabeth, com todo o seu enredo extranho. Jean Richepin, cujos estudos em parte resumimos, no desenvolvimento da presente nota, não só frisa a influencia daquella côrte, na obra do Poeta, como conclue, a proposito do seu caracter e Arte o seguinte:
—«A Arte e a moralidade estão sobre dois planos differentes, dois planos que se não confundem, em boa verdade. Que de tempos a tempos estejam de accordo, simulando juntar-se sobre um plano unico,—eis o que pode succeder e encantar-nos.
Mas se os dois planos se mantêm separados que fazer? Eu desejaria, de certo, que elle (Shakespeare) tivesse sido, ao mesmo tempo, um homem honesto, o grande artista, um bom pae, bom marido; mas, nem por isso, deixo de preferir que elle tenha sido o contrario de tudo aquillo e nos tenha dado uma bella obra.»