Abraça-o com extremado affecto e inexprimivel gratidão o seu
CAMILLO CASTELLO BRANCO.
Porto, 6 de abril de 1888.
Esta carta foi pela primeira vez patente ao publico no jornal O Seculo,{18} em 4 de julho de 1914, onde nós a publicamos para evitar que fosse por diante a trasladação dos restos do Escriptor para Belem, que um grupo de parlamentares, a que presidia o illustre professor sr. Carvalho Mourão, devotadissimo admirador de Camillo—tencionava, ainda contra a má vontade de uma parte da Camara, que, diga-se de passagem, vergonhosamente, e sem conhecimento deste e demais documentos, logo se deu a objectar innocentes escusas, á conta duma tal jornada.
Muito antes, e incidentemente, nos veio á mão aquelle documento, quando também nós—(que, ao tempo não tinhamos sequer presente a segunda carta de Camillo a Freitas{19} Fortuna, sobre o assumpto, aliás desde muito publicada—)[[3]] nos propunhamos insistir e collaborar com todos aquelles que, seriamente, e bem de alma, se dessem a promover ou dispor a trasladação, que já então, valha a verdade, consideravamos menos como homenagem necessaria á sua memoria, do que como solução de direito, que não de obsequio, ao repouso definitivo das suas cinzas.
Aprestara-se-nos o ensejo de ver realisadas as nossas esperanças, de par das dos maiores admiradores de Camillo—Silva Pinto, Senna Freitas e Ricardo Jorge, no melhor numero—quando, a proposito da deliberação da Camara do Porto{20} e «Renascença Portuguesa» que, por si, e independentemente da discussão tragico-burlesca dos parlamentos, se propunham levar a cabo uma tal idéa,—nós fomos solicitado a ouvir dos representantes de Camillo a sua opinião a tal respeito, isto é, a consulta-los sobre se auctorizariam ou não o levantamento dos restos do Escriptor do seu jazigo na Lapa.
É claro, que interferi no caso particularmente, e só por acquiescer ás solicitações dum illustre membro da Camara do Porto, tambem, ao tempo, do corpo dirigente da «Renascença Portuguesa», sociedade literaria com séde na mesma cidade[[4]], e que para aquelle effeito se{21} me dirigiu, bem por certo por mera razão da minha idoneidade como incondicional admirador do Romancista, mais pelo conhecimento que porventura tivera das minhas opiniões a tal respeito, desde muito, expressas.
Ora foi a tal proposito que, conjunctamente com a resposta de Nuno Placido Castello Branco, eu recebi a copia daquella carta, pelo punho do Visconde de S. Miguel de Seide, com a ordem de a publicar opportunamente, e como instrucção do juizo que porventura seguissemos, no caso da consulta que, por sua vez, elle devolvia para que sobre ella as Corporações interessadas resolvessem.
É claro que, á face de tão obrigante{22} documento, a sua opinião parece ter sido uma:—nunca mais aquellas corporações pensaram na trasladação. E dahi tambem o silencio, feito á volta do caso, até ao momento em que alguns deputados, aliás no melhor empenho,—o mesmo que a Camara do Porto e a «Renascença Portugueza» tinham tido—deliberaram voltar ao assumpto.
Foi então, repetimos, que, pela primeira vez, entendemos de nosso dever publicar aquella carta, como elucidação aos promotores da inopportuna homenagem, e tão cabida ella foi que logo, avisadamente, aquelles desistiram do seu intento, transferindo as importancias destinadas á sua despeza para o levantamento{23} de um monumento, infelizmente já bem tardio, a Camillo.