Entretanto, pois que, desde que se tornou inopportuna, por não dizer impertinente, a trasladação, parece ter crescido o numero dos devotos de tal idéa—vamos nós, hoje, que estamos de posse de todos os documentos, ver o que, á face delles, aquella vale.
Mas antes, e por melhor firmar opinião, sigamos no traslado dos documentos que ao assumpto se referem. Tornar-se-á mais facil de ver depois, e a melhor luz, até onde vae a teimosia dos sectarios duma idéa hoje indelicada, (e que maior crime pode cometter-se para com os mortos do que o da indelicadeza?—) que não{24} sectarios da melindrosa memoria do Escriptor.
Eis a segunda carta de Camillo a Freitas Fortuna:
«Meu presado Freitas Fortuna.
Começo a experimentar uma especie de affecto posthumo ao meu cadáver.
Tão pouco me apreciei na vida, tão pouco cabedal fiz da minha saude, que já agora me quer parecer, que este amor ao que nada vale é retribuição devida a esta materia, que me ha-de sobreviver alguns annos aviventada pela engrenagem de putrefacção.
Deste affecto extraordinario, mas não excepcional, resultou dizer-lhe eu, meu querido amigo, quer falando, quer escrevendo, que aspirava fervorosamente a ser sepultado no seu jazigo da Lapa.
E bem certo que, para além da campa,{25} ha o que quer que seja que ainda nos prende ás coisas mortaes. Sei que no seu jazigo dormem o somno infinito seus extremosos progenitores.
Ambos conheci na flor da vida, no esplendor da honra, nas luctas do trabalho e na pujança da alegria e da felicidade.
Ambos morreram no vigor dos annos, se podem considerar-se mortas duas imagens sagradas que renascem na alma dum filho ao fogo da sua saudade, com o seu respeito filial, com as suas lagrimas represadas, e que os annos ainda não poderam crystallizar em glacial indifferença.