Volvido um longo praso as cinzas do meu querido Freitas irão aos braços já cinzas tambem de seus paes estremecidos.

Se a morte tivesse expressão que não fosse aquelle mudo terror de um gesto que ao mesmo tempo anniquilla e grava o eterno estigma do silencio nos labios gelidos, só ella poderia dar-nos a sombra horrida e que o seu esquife baixar á perpetua união{26} com os cinerarios de seus paes . E eu, a essa hora, estarei á beira delles como testemunha silenciosa das compungidas lagrimas que lhe vi na face quando o coração lhas dava repassadas duma santa saudade.

Não sei se esta chimera, que vagueia na região tenebrosa e na crypta dos mortos amados e chorados, foi a despertadora vontade que me domina ha anno e meio de ser enterrado no seu jazigo.

O meu querido Freitas Fortuna acceitou com ternura a offerta do meu cadaver, e d'essa arte, permittindo que eu fizesse parte da sua familia extincta, quiz continuar alem da vida a tarefa sacratissima da sua dedicação incomparavel. Bem haja, e adeus.

Bemfica, 15 de julho de 1889.»

Seu do coração,

CAMILLO CASTELLO BRANCO.[[5]]{27}

Esta carta foi a primeira que sobre o assumpto veio a publico, tendo sido impressa no Jornal da Manhã, de 3 de junho de 1890, ou tenha sido na vespera do dia da entrada do cadaver de Camillo no mausoléo-Fortuna.

Comprehende-se que, a despeito do seu texto, os admiradores do Romancista pretendessem ainda o seu ingresso no Pantheon, porquanto não é aquella bem frisante e incondicional, como a primeira a que se refere, e que, durante tantos annos, foi geralmente ignorada.

Entretanto, que de ambas as cartas os interessados mais proximos, (referimo-nos á Familia-Fortuna e á de Camillo) tinham pleno conhecimento, prova-o não só a circumstancia{28} de immediatamente fazerem seguir para o cemiterio da Lapa o cadaver do Romancista, mas, ainda mais, o facto de quasi logo as duas partes interessadas se mutuarem as mais claras obrigações não só para garantirem, como por tornarem effectivo, perpetuamente, aquelle deposito.