II

A INDOLE DE FIALHO

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Não é facil escrever de momento, e directamente, ácerca dum artista como Fialho, tal o occultismo das suas predilecções, como, mais propriamente, da obra que deixou, e tomaremos ainda como indice da sua singularissima neurilidade.

Assim, começaremos por esclarecer que Fialho d'Almeida era filho de um homem da Beira e de uma mulher do Alemtejo, por melhor caracterizar algumas das suas extranhezas e contrastes, como o seu conflicto em materia de assumptos e realizações artisticas, que, antes de tudo, parecia advir-lhe do ser encontro de duas raças.

Da mesma maneira que cumpre ter presente[{36}] a influencia da provincia em que nasceu, e que, na infancia, a edade impressionavel por excellencia, lhe deu aquelle amor pela tinta mais propria, ou seja a que os seus olhos receberam directamente da paizagem; como a sua grande intimidade com a natureza, com quem aprendeu a exprimir-se, e que tão fundamente foi penetrada pelo seu genio.

De facto, nenhum elemento mais cioso da transmissão do caracter do que a terra. O que Fialho prova, á saciedade, a par dos nossos maiores impressionistas.

Desenvolvemos noutro logar[1] a indole da zona mais meridional do Alemtejo, onde se incluem Cuba e a pequena villa em que nasceu Fialho.

Resulta daquelle estudo um campo ethnico á parte na geographia intima de[{37}] Portugal região embaraçada da herança arabe, que semelhantemente se vê na cultura, nos seus barros e azulejos, nas suas casas, como nas manifestações mais simples da vida vulgar dos seus habitantes.

Ora Fialho, que ali passou parte da infancia jámais destruirá a recordação do primeiro espectaculo natural que feriu a sua retina de colorista, e, depois, pela vida fóra, mais se lhe foi insinuando pela mesma fatalidade de sangue e nascimento que á sua terra o prendia. É isto, apesar da herança de tristeza que tambem desta lhe provinha, e a que se refere, ainda doridamente, annos depois da sua estada ali, no capitulo autobiographico do Á Esquina.