Ora, isto me ia eu recordando, ao seguir, mais o coveiro, pelo cemiterio de Cuba, do mesmo passo que, sem querer, lembrava certas passagens da Obra de Fialho, que, de momento, quasi me falavam, e, eu sentia, como que batidas de vento, ao meu ouvido...

Como no caso das grandes paginas de presagio da sua monographia—Manuel, começára de anoitecer, e os sinos tocavam!

Ainda mais, lembro-me de ouvir, ao[{29}] longe, nitidamente, distinctamente, representando-se-me como um relampago vermelho á meia treva, o uivar daquelle cão, que, quando, em taes paginas, o Artista se dá a dialogar com o Coveiro a probabilidade de Manuel ser enterrado vivo, como toda a sua afflicção pela farça material dos tumulos—como que o chama á realidade desse mundo que fica para alem do proprio pezadelo hystero-epiletico da sua tortura de superemotivo, e lhe queda, a dobrar, na alma, o timbre vivo e sinistro da hora horrivel que já não conta, e, eu, de momento senti ali, perto delle, bater tragicamente, lugubremente, como um echo do seu sentido, ainda doloroso, embora já distante, vago, erradio...

Porque, para mim, esse typo de hysterico e fragmentado, contradictorio e presciente que figurou no Manuel, é fundamentalmente elle proprio, desdobrando-se[{30}] por escrever a sua mesma «duplicidade cerebral» e gritar contra a desgraça do outro, «o que morrera», e agora, eu sabia ali, sem que ao menos pudesse precisar onde!

Onde?

Eis o que o coveiro, depois que o instei, se deu a contar-me, moendo as palavras, que, aliaz, lhe sahiam cavas e aos gorgolões, como se me falasse ainda da adega á qual, minutos antes, o fôra arrancar.

Afinal pouco tem que ver a futura Casaforte dos ossos de Fialho,—no começo da primeira rua do cemiterio, e a poucos passos do portão, como do logar em que nos encontravamos.

Imagine-se uma especie de cofre em marmore branco, sem arestas, escrupulosamente polido e goivado á volta, quasi sem ornatos, uma porta grossa cruzada da fecharia,—todo elle de um desenho facil, e, por sobre a cupula, ainda de pedra, dois[{31}] gatos de bronze, dormindo abraçados o velho somno dos symbolos! Eis tudo...

Este, repetimos, o mausoleu que lhe servirá em breve.

Porque provisoriamente, e a avaliar das informações que apontei, o Escriptor, descança ainda, de momento, ao fim do cemiterio, perto da ultima parede, num pedaço de chão mal tijolado e de emprestimo, em sepultura rasa...[{32}]
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